Psicologia em Prática:

Pílulas de (auto)Conhecimento

Houvesse apenas um caminho…

 

Houvesse apenas um caminho, todos os caminhantes se encontrariam, mas não saberiam seus nomes, pois suas vozes seriam a mesma. Escrevi esta frase em um cartão para uma pessoa querida, como forma de desejar que, em seu percurso pela vida, encontre um caminho próprio em meio ao turbilhão de informações e exigências. Parece missão simples, mas nada fácil. Mas, além de ilustrar a intenção de um presente festivo, a frase denota que este tema tem circulado em meus pensamentos com certa frequência; seja por conta das questões que ouço na clínica, de minha área de pesquisa acadêmica ou pelo próprio contexto social deste início de década.

Antes de que o leitor pense que o texto será de cunho motivacional, que não se engane, pois ainda me  parece mais útil exercitar o pensamento crítico antes de interpretar a frase como um convite para que cada um “seja você mesmo”, um pleonasmo inevitável da obviedade. Por isto, trata-se de um questionamento sobre como a tecnologia que nasce para unir pessoas, acabou se tornando, a nível individual, fonte de sofrimento mental, assim como, a nível social, constante preocupação quanto aos impactos negativos sobre as instituições democráticas que dão suporte à civilização.  

Em 2020 George Orwell*, caso vivo, ficaria espantado ao descobrir que seu Big Brother não precisaria espionar ativa e secretamente a vida dos cidadãos, pois todos transmitiriam de forma voluntária sua intimidade e prestariam, sem questionamentos, contas de suas preferências, comportamentos, ideias e ideais, impulsionados pelo desejo algo inconsciente de serem avaliados, homogeneizados e padronizados. O autor de 1984, veria que as instituições de controle e observação seriam obsoletas se comparadas a uma forma muito mais sutil de monitorar, mensurar e direcionar comportamentos sem a necessidade de violência direta, para as quais não houve qualquer imposição de uso, pois todos aderiram solicitamente a seu uso e a alimentam com informações pessoais de bom grado. Orwell certamente se espantaria com o poderio levantado por Mark Zuckerberg, pois aqui já deve estar claro que estamos falando das mídias sociais.

Para jogar alguma luz àquilo que se tornou normal a ponto de não ser mais percebido, é importante entender que as mídias sociais não são um serviço que você utiliza sem custo material. Este custo pode até não ser de moedas que saem de sua conta ao logar em seu perfil, mas é capitalizado em produto ainda mais valioso, ou seja, você paga com sua atenção que será vendida a anunciantes, assim como também paga com seus comportamentos, preferências e padrões de usuário, base de dados a ser utilizada por empresas como a Cambridge Analytica para moldar anúncios e campanhas feitas com precisão, para que você não resista, seja a comprar um produto, ou para alterar intenções de voto de parcelas significativas da população. É o bom e velho ganha-ganha. Claro, para a empresa que pode lucrar tanto com a política de teclado, como com política de Estado.

Mas, esta ainda não é a jogada de mestre desta tecnologia que faz o Big Brother de Orwell parecer um automóvel dos anos 60, barulhento e pouco eficiente, pois o grande salto está no poder de aprisionamento subjetivo ofertado pelas mídias sociais. Perceba o leitor que este aprisionamento não é imposto, pois não existe, como no romance de Orwell, um Partido que obriga o assujeitamento de todos à sua necessidade de espionar e controlar. O verbo aqui escolhido foi ofertar, porquanto trata-se de oferecer as condições, a plataforma ideal  para que a captura aconteça com a solícita participação de todos que, sabendo ou não, doam-se de corpo e corpo aos olhos de cada pequeno (e grande) outro, em via escópica de duas mãos, criando uma constante relação de olhar e ser olhado, desejar e ser desejado a cada deslizada de dedos pela tela. Entrega-se a chave da prisão em troca de likes, retweets e seguidores.

Jacques-Alain Miller** comenta que é o desejo de ser avaliado que dá aos avaliadores poder sobre ao avaliado, aos moldes dos vampiros da Ficção, é necessário convidá-los a entrar. Porém, ao desejar a constante avaliação, dá-se aos avaliadores o poder de extinguir quaisquer possíveis traços diferenciais do sujeito, criando ideais cada vez mais padronizados de felicidade, sofrimento, sexualidade etc. O autor escrevia em 2003, muito antes do advento dos smartphones (que ocorreria por volta de 2007), no contexto das  avaliações de classes profissionais; mas, a estrutura das relações entre o sujeito e os ideais culturais, que Miller levanta neste texto, é aplicável à realidade que estamos aqui discutindo, pois indica o desejo neurótico de ser constantemente aprovado, chancelado pelo amor do Outro***. O que muda, é que a figura do avaliador seria substituída pelo coletivo que dialeticamente avalia, enquanto é também avaliado e direcionado não mais pelas instituições, mas pelos algoritmos que definem o funcionamento das plataformas de usuários.

Mas, não deixai toda esperança, ó vós que logais. Houvesse apenas um caminho, todos os caminhantes se encontrariam, mas se perceberiam sem voz, pois, a angústia de descobrir-se sem nome próprio, andando pelos algoritmos a depender dos likes e visualizações daqueles que tropeçam pelas redes, tem dado espaço a movimentos no sentido de controlar a ferramenta que pretendeu conquistar os artesãos (Mark que se contente). É o próprio mal-estar que nos leva, cada meia-volta da História, a questionar a própria civilização e as trocas que esta exige de seus civilizados indivíduos pois, aparentemente, é preciso perder a liberdade para poder lutar pela mesma. Neste sentido, resta apostar no fracasso desta prisão sem muros criada pelo (mal) uso das redes, que se expressa em forma de sofrimento como o medo de estar sempre perdendo algo (Fear of Missing Out: FOMO). Fracasso que possibilita que sejam criados novos caminhos, novos nomes, novas formas de se caminhar, com passos cada vez menos (algo)ritmados, de forma que seja possível tomar posse dos próprios desejos, sem ignorar a responsabilidade que isto implica. Afinal de contas, é o sofrimento de estar a-sujeitado que possibilita que possa fazer-se um sujeito.

 

 

*George Orwell (1903-1950), escritor, autor do romance distópico 1984.

** Você quer mesmo ser Avaliado? (Miller, J-A., 2003)

***A noção lacaniana de Outro – “grande outro” – trata-se de uma realidade discursiva, pertencente ao registro do Simbólico na qual se supõe a participação de um outro – no sentido de alteridade – mas que não se identifica totalmente a um sujeito.

Fugir para a Natureza, ou encontrar-se com ela?

Um artigo publicado em 2008 por Berman, Jonides e Kaplan já demonstrava que caminhar pela Natureza, longe dos estímulos urbanos, traz benefícios cognitivos como restauração de algumas capacidades essenciais à memória e ao foco. Depois disto, vários outros artigos foram publicados indicando benefícios para auxílio no tratamento de ansiedade, depressão e bipolaridade, alguns com resultados bastante promissores (sem, contanto, dispensar o tratamento Psi).

Provavelmente, quem já teve este tipo de experiência de desligamento do fluxo cotidiano concorde com estas pesquisas. Com a procura cada vez maior de pessoas por esportes na natureza, mais dados tem sido produzidos corroborando a hipótese de que o contato com o mundo natural traz benefícios à saúde além da atividade física em si. Mas, apesar de relevantes, estes dados merecem levantar outra questão. Que direção nossa sociedade está tomando, que o dia a dia passa a ser considerado tóxico, a ponto de necessitarmos de momentos de fuga para restauração de capacidades mentais básicas?

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Aparados da Serra – 2019.

Os movimentos como das Slow Cities (que se inspiraram no Slow Food) perceberam isto já há algum tempo e “desaceleraram” o ritmo, afim de permitir maiores laços entre os indivíduos, maiores laços comunitários e… (surpresa!) melhor qualidade de vida.

Portanto, fugir para a natureza pode ser um bálsamo para o aceleramento, assim como para as cobranças da “vida”. Mas, quem sabe, da natureza podemos trazer o sossego, o equilíbrio e a sustentabilidade para nosso dia a dia. Sustentabilidade de retirar/produzir aquilo que necessita, consumir o que é necessário e não mais pois, mais, nestes casos, significa mais custos, mais trabalho, mais cobranças, mais sofrimento. Este “mais”, que não tem fim, significa a entrada no tóxico ciclo que gasta o planeta, consome o sujeito e desgasta relações e comunidades.

É possível que a solução esteja bem diante de nossos próprios olhos e que, com menos e não mais, o dia a dia poderia ser menos tóxico, para que a Natureza possa ser uma opção de encontro constante, e não de fuga desesperada.

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Foto de Bruno Haller, Aparados da Serra, RS, 2019.

A sua opinião tem dono?

Provavelmente você nunca de ter ouvido falar em engenharia do consentimento, mas certamente vai reconhecer seu funcionamento depois que souber um pouco mais do que se trata, e de como isto influencia em suas opiniões e modo de ver o mundo.

A engenharia do consentimento é uma ferramenta amplamente utilizada para direcionar a opinião pública sobre determinado tema, valendo-se para isto dos mecanismos de funcionamento mental mais básicos, como empatia e medo, para criar engajamento do indivíduo em relação a um grupo, ou a um tema que interesse a este grupo. Parecem aqueles enredos de filmes de conspiração do começo dos anos 2000, mas na verdade é algo de que se tem notícia desde o início dos anos 1900, tendo maior uso (e sucesso) após os anos 50, fundando as bases para o que hoje chamamos de Marketing.

Porém, esta forma de manipular a opinião pública toma cada vez mais o interesse dos pensadores atuais tendo em vista seu poder cada vez maior sobre um público cada vez mais polarizado. Um exemplo é o internacionalmente respeitado linguista Noam Chomsky, que retrata o efeito deste formato discursivo em seu livro “Mídia, Propaganda Política e Manipulação”, além disso você também pode se aprofundar no assunto através de seu documentário “O fim do sonho americano”  (abaixo) Ou então em “O Século do Ego” dirigido por Adam Curtis para a BBC.

 

Mas, e como fica o questionamento inicial de se você é dono de sua própria opinião?

Bem, para explicar como é possível direcionar a opinião das pessoas diante de uma situação, fiz um rápido experimento utilizando o Instagram (@danielrbranco), no qual foi explicado como a manipulação acontece e logo após duas fotos foram postadas com uma pergunta. Como nos dias desta postagem (e ainda hoje) a situação na Venezuela tomava conta de todos os noticiários, usamos este tema para formular duas questões diferentes.

Segue abaixo a explicação que foi postada antecedendo as imagens, que aqui se presta também a falar um pouco mais da tal engenharia para criar engajamento:

“Uma das formas de manipular a opinião pública é alterar o sentido de um significante como, por exemplo a palavra guerra. Se perguntarem a você se apoia a guerra na Venezuela, ou uma intervenção armada, há grandes chances de que diga que não, mas se perguntarem se apoia uma ajuda humanitária, existe um apelo à empatia pelo sofrimento (neste caso real) dos povos do local e por isso, aumenta-se muito as chances de o indivíduo dizer que sim, apoia a ação do Estado. O mérito neste exemplo, não é se a Venezuela precisa de ajuda, mas sim faz com que as medidas para esta ajuda não sejam questionadas pois, ninguém questionaria uma ajuda humanitária. Todos os meios de comunicação insistem no termo, insistem na sua necessidade urgente, repetem a ideia até que a população “espontaneamente” esteja pedindo pela ajuda humanitária que pode resultar, na verdade, na intervenção armada que era o sentido original da proposta. Apenas após isto, surgirão dados que questionarão por que a ONU não participou, porque o grupo menos belicoso que se reuniu em Montevidéu não recebeu atenção da mídia? Quais os reais interesses norte-americanos na Região?

Esta manipulação, que faz uma apreensão do sujeito, impede que este faça questionamentos básicos e simples sobre a situação que se apresente em sua realidade cotidiana. Não por falta de inteligência, mas porque outros mecanismos psíquicos tomam conta de seu pensamento. Outros exemplos? Parear a imagem de feministas à da bruxa (veja artigo na revista Cult), pessoas de postura progressista com terroristas, etc…”

Após esta explicação, foram postadas as duas enquetes, na sequência que seguem aqui, após a frase de introdução: “Ok, vamos testar como isto funciona?”.

 

O engajamento para o “experimento” foi alto, atingindo em torno de 1200 usuários do aplicativo que seguem o perfil. Percebam que, mesmo após a explicação do que seria feito e o aviso de que isto seria um teste para saber se aquilo que foi dito realmente teria efeito apenas com a mudança do sentido dado pela escolha de palavras e imagens, a adesão ao SIM foi muito maior na primeira imagem do que na segunda.

Mas, como isto é possível se o raciocínio e a lógica são as mesmas? Como é possível uma mudança de opinião de praticamente 50% dos votantes no período de 15 segundos entre uma imagem e outra?

Apesar disto ser apenas uma brincadeira, não se tratando de um experimento controlado, é capaz de levantar algumas ideias interessantes sobre como o aparato de Estado (e certamente também de mercado) conseguem induzir a resposta da população frente a uma decisão. A simples mudança de palavras e imagens é capaz de direcionar o que as pessoas pensam sobre determinado assunto, apoiando muitas vezes posturas das quais nada sabem, ou para aquelas que não buscaram saber sobre sua História e quais as motivações dos personagens envolvidos em cada lado do espectro.

Não há uma resposta definitiva de como lidar com este fenômeno, mas uma boa pergunta pode ser melhor do que uma resposta parcial, por isto, sempre que for apoiar algo (ou alguém) sem saber com alguma profundidade sobre o assunto, pergunte-se: “Você é dono de sua própria opinião?”.

O Jardim das Ilusões!!

Olá seres atravessados pela era da Informação. 

Por conta da demanda dos alunos de graduação, que se vêm frente a uma enxurrada de informações que precisam ser filtradas, percebo certa confusão em relação a saber o que é, e o que não é confiável para ser usado como referência. 

Bem, seguem aqui algumas direções que úteis tanto para quem está em fase de pesquisas acadêmicas, estudos para atuação profissional, quanto para quem faz leituras ou consome conteúdos de forma espontânea seja em blogs, youtube, podcasts e mídias sociais. 

A primeira orientação a se ter em mente é: uma informação ser publicada em um livro não é garantia de sua consistência. O mesmo vale para publicações em revistas de circulação geral (não acadêmicas), vídeos no youtube, posts do twitter. O que é dito, precisa ser verificado, isto é parte do processo de aprendizagem.

Isto leva à segunda orientação: Quem é o autor? Qual a confiabilidade da fonte desta informação?

Verifique a relevância do autor e sua produção técnica/acadêmica antes de citá-lo. 
Mesmo as novas teorias quando surgiram na história, por mais que tenham enfrentado certa resistência acadêmica, estavam sustentadas por um conjunto de teóricos/técnicos que a endossavam. Um exemplo é a própria psicanálise com a “sociedade das Quartas-feiras”, formada por médicos e estudiosos interessados, como Freud, em estudar a fundo o psiquismo Humano. Mesmo nestas casos, apensar de uma resistência inicial, uma construção de conhecimento séria demonstra consistência teórica que se manifestam em dados e publicações que conquistam prestigio entre outros cientistas, que por sua vez irão citar estas publicações em suas próprias.

De extrema importância para a ciência do conhecimento (epistemologia), Thomas Khun definiu que a estabilidade de um campo científico pode ser observada pela aceitação dos paradigmas deste pela comunidade de pares deste campo. Khun previu que discussões entre escolas são possíveis e até fazem parte do processo esperado em uma revolução científica porém, em momento algum sustenta que uma linha de pensamento poderia se sustentar diante da total desaprovação do meio científico.

De forma prática, existem indicadores para saber o quanto um autor é citado em sua área. O próprio Google scholar (acadêmico) é uma forma simples de saber o índice de citações de um autor que recebe por sua obra, o chamado i-10. O cuidado a ser tomado nestes casos é verificar de forma não apenas quantitativa (número de citações), mas também qualitativa, para evitar aferir credibilidade a algum autor que esteja sendo citado por ser constantemente refutado, ou apenas citado como alegoria, o que seriam na verdade indicadores negativos de confiabilidade. Mas, como fazer isto? Indo às fontes, lendo, pesquisando… Afinal, como diz Contardo Calligaris em sua coluna à Folha, para não dar opiniões esdrúxulas, leia pelo menos 4 livros de autores diferentes sobre o assunto. 

Portanto, desconfie de quem produz somente fora do meio acadêmico, isolado e desprezando a academia – geralmente um sinal de defesa. Busque a consistência dos dados e da teoria, procure saber se a interpretação do autor tem ressonância no meio. Sem verificação dos pares (outras pessoas da área) a produção pode ser um mero delírio do autor, no qual você arrisca embarcar quando não busca outras fontes.

O jardim das maiores aflições é o Jardim das ilusões!!

Daniel R. Branco

Ao Cantar na Escuridão…

“Ao cantar no escuro, o andarilho nega seu medo, mas nem por isso enxerga mais claro” Freud, 1926.

No espírito acelerado dos tempos atuais, nos quais a informação se tornou moeda acessível, pelo menos em partes, para todos, a mera possibilidade que o caminho da vida possa não ser totalmente banhado pelas luzes do conhecimento é rapidamente descartada como impossibilidade. Negada, nos discursos que permeiam a existência, até as últimas consequências. Mas, seria isto uma possibilidade real? Seria o saber passível de ser alcançado em sua completude, já que estamos banhados virtualmente por um mundo “High Tech”, que atravessa do espaço mais público ao mais íntimo?

Enquanto a ciência sabe que é a dúvida que gera o conhecimento, o cientificismo (sim, são diferentes) tem a certeza de poder explicar tudo; com a genética prometendo mapear e decodificar todos os traços tanto objetivos, quanto subjetivos, com as técnicas de autoajuda criando métodos a serem vendidos como solucionadores para todas as infelicidades da vida – seja ela individual, matrimonial ou corporativa – com a dogmática de religiões pós-modernas se esmerando em não deixar espaço para a dúvida. Resta somente aos historiadores, filósofos e psicanalistas apontarem o que destoa deste discurso que se apresenta tão sedutor ao sujeito.

Quando Freud escreveu a citação que deu início a este texto, em muitos aspectos o mundo era um lugar diferente. Desde então, a sociedade, a medicina e a ciência tiveram seu percurso,  no qual a ideia de evolução não deve ser entendida como uma linha constante, nem mesmo como uma tendência garantida, mas apenas como um desejo muito compreensível por parte de todos os envolvidos. Mas, um desejo dado como garantido a ponto de que a própria teoria da evolução darwiniana ser interpretada como demonstração desta tal tendência, mesmo que o autor em sua teoria da adaptação, nada tenha dito sobre um empuxo positivo à evoluir. Neste caso, embora a evolução seja uma questão de opinião, a mudança é, esta sim, inexorável e assustadora. Desta mesma forma, lacunas são preenchidas pelo senso comum para lidar com o medo do futuro, do incerto, daquilo que inevitavelmente é obscuro pela própria característica da existência.

O pensamento corrente pouco se alterou nesse longo espaço de tempo, tendo claramente criado soluções para grandes problemas de saúde, mas teve como efeito colateral (talvez necessário) o desenvolvimento de um discurso que vai de um determinismo extremo a uma tentativa de total holismo, mas que têm como ponto de coincidência a neurose por um saber que seja todo; pela total eliminação de qualquer impossibilidade. “Se você deseja, você consegue”, preferencialmente por si mesmo mas, se não for possível a ciência demonstrará qual a forma ou medicação/intervenção correta para tornar viável aquilo que cada um deseja. Uma imposição do sujeito ao contingente que, se levada a sério, possui ares de megalomania, como um delírio iluminista levado às últimas consequências!

Consequências estas que em partes seriam a construção de uma realidade frágil que procura se sustentar em pós-verdades, em figuras de identificação que enlaçam a plateia com discurso duvidoso, mas hábil em criar a desejada sensação de segurança – mesmo que falsa. Tal manobra demanda enorme esforço e investimento subjetivo para evitar o desconforto do não saber… Um salto de fé, mas sobre terreno suspeito!

Freud reconheceu em sua criação que, embora o movimento em direção ao saber seja necessário, há nele uma inerente miopia. Uma visão parcial, constituinte da própria condição humana e necessária para suportar a delicada ex-istência em meio às reais incertezas causadas por inevitabilidades da vida, como o tempo que consome o corpo, a natureza que volta e meia nos prega peças e as próprias ações do Outro, inesperadas e muitas vezes confusas a nosso olhar. Mas, nem por isto, esta miopia seria um acordo sem falhas em nosso processo civilizatório, pois ao ignorar a existência da falta,  tentando preencher todas as lacunas, o sujeito humano se empenha em um esforço fadado a entrar em conflito com a sua própria impossibilidade. Com a impossibilidade que não cessa de testemunhar que por mais luz que se jogue em um espaço, as sombras não deixam de existir, na verdade se fortalecem pela própria ação do ato de iluminar. Onde há luz, há sombra! Assim, ao ignorar este conflito, escancarado por este esboço do Real, o sujeito gera ainda mais sofrimento.

A saída, por mais simples que seja, não se constitui em tarefa fácil, apesar de possível. O mero ato de perceber este engano, de reconhecer sua existência, cria um novo movimento que permite percorrer o caminho do saber, mesmo que este caminho seja sempre parcialmente iluminado. Reconhecer a falta que nos habita pode ser a única forma de lançar alguma luz sobre a realidade de nosso percurso, pois reconhecer o medo do escuro não fará o andarilho enxergar melhor o caminho, mas certamente é uma aposta em saber de sua ignorância, para criar um novo modo de andar, condizente com sua realidade e pronto para resistir aos percalços de sua caminhada.

Setembro Amarelo: Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

Uma data criada para abrir as portas da fala, para esta que tem sido a causa de morte cada vez mais frequente nas mais diversas culturas, independente de sua posição sócio-econômica. Uma data criada para que se fale abertamente daquilo que, como um tabu, não deveria ser falado. Entendia-se que era melhor o silêncio. Não falar seria a forma de que o problema não se tornasse epidêmico… O problema é que não falando, foi exatamente a forma pela qual ele tornou-se, de fato, tão grande quando nunca deveria ser.

É sim, pela fala que muitos suicídios podem e têm sido evitados, é pela escuta treinada de um profissional que saiba acolher o sofrimento do sujeito e dar a ele uma saída única, singular de cada indivíduo.
A medicalização pode ser uma dentre as muitas saídas, a ser definida no caso-a-caso, mas definitivamente não é a saída definitiva; não é definitivo a solução para todos os males como quer a grande indústria farmacêutica. Seu fracasso enquanto promessa de uma solução unica é facilmente observado nos altos índices de suicídio mesmo nos países que mais consomem psicofármacos no mundo.
O que não quer dizer que o medicamento seja um mal em si, mas o é a forma alienada com a qual seu uso tem sido feito. A medicação pode ser uma alternativa essencial em muitos casos em conjunto com a psicoterapia, mas trabalhar com saúde mental de forma consciente é saber que nada é solução para tudo, nem tampouco solução para nada.
Porém, já se sabe que fechar as vias da fala, seja pelo preconceito ou pela mudicalização impensada, não é a solução para um mal que muitas vezes se expressa exatamente pela falta de saídas.

Procure um profissional que te escute; te escute como sujeito, como humano, que não precisa necessariamente ser posto no leito de Procrusto da Normopatia contemporânea. Fale com alguém sobre seu sofrimentos, construa saídas. Pois sim, falar é construir novas saídas para aquilo que aprisiona.

Falar é a melhor Solução – Setembro Amarelo.

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Uma data criada para abrir as portas da fala, para esta que tem sido a causa de morte cada vez mais frequente nas mais diversas culturas, independente de sua posição sócio-econômica. Uma data criada para que se fale abertamente daquilo que, como um tabu, não deveria ser falado. Entendia-se que era melhor o silêncio. Não falar seria a forma de que o problema não se tornasse epidêmico… O problema é que não falando, foi exatamente a forma pela qual ele tornou-se, de fato, tão grande quando nunca deveria ser.

 

É sim, pela fala que muitos suicídios podem e têm sido evitados, é pela escuta treinada de um profissional que saiba acolher o sofrimento do sujeito e dar a ele uma saída única, singular de cada indivíduo.

A medicalização pode ser uma dentre as muitas saídas, a ser definida no caso-a-caso, mas definitivamente não é a saída definitiva; não é definitivo a solução para todos os males como quer a grande indústria farmacêutica. Seu fracasso enquanto promessa de uma solução unica é facilmente observado nos altos índices de suicídio mesmo nos países que mais consomem psicofármacos no mundo.

O que não quer dizer que o medicamento seja um mal em si, mas o é a forma alienada com a qual seu uso tem sido feito. A medicação pode ser uma alternativa essencial em muitos casos em conjunto com a psicoterapia, mas trabalhar com saúde mental de forma consciente é saber que nada é solução para tudo, nem tampouco solução para nada.]
Porém, já se sabe que fechar as vias da fala, seja pelo preconceito ou pela medicalização impensada, não é a solução para um mal que muitas vezes se expressa exatamente pela falta de saídas.
Procure um profissional que te escute; te escute como sujeito, como humano, que não precisa necessariamente ser posto no leito de Procusto da Normopatia contemporânea. Fale com alguém sobre seu sofrimentos, construa saídas. Pois sim, falar é construir novas saídas para aquilo que aprisiona.

A Arte de Criar Pedras

 

"A Poesia é como fazer um caminho a partir de uma pedra, e a Análise é fazer belas pedras a partir de um caminho" (Jacques-Alain Miller).

Ao caminhar pela vida, há momentos em que o caminhante enguiça.

Depara-se com um caminho há muito conhecido, já muito trilhado por seus pés; mas que de repente, sem que perceba como isto aconteceu, exige um grande peso a cada passo.

É por isto que Miller fala nesta metafórica pedra como uma produção necessária ao processo de análise. Necessária ao trabalho que aposta em possibilitar ao sujeito voltar a caminhar, mesmo que por um novo percurso, agora adornado por suas pedras, criadas como totens que demarcam suas conquistas.

Mas, criar pedras não é algo fácil, ainda mais as metafóricas! Pois, exige a força para gestar perguntas, mesmo quando buscando respostas. Exige a perspicácia para permitir questionar-se a partir do velho e repetido caminho, questionar-se a partir dos tropeços de rota: O que queres?!

(Daniel R Branco)

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De vales a Picos – A Conquista de Guilherme e Juliana

Algumas experiências de nossa vida fazem uma mudança tão profunda, que quando pensamos nelas, sabemos que é uma divisora de águas. Elas podem ser um grande evento inesperado, uma mudança de condição física ou social, ou simplesmente um novo sentido adquirido em um processo de autoconhecimento. Se terão frutos positivos ou negativos, depende do sentido dado por cada um de nós a estas experiências.

O momento decisivo para o casal Guilherme e a Juliana veio há alguns anos atrás, de forma totalmente inesperada, quando a Juliana começou a apresentar sintomas de uma síndrome degenerativa do sistema nervoso, durante a gestação.

Assustador, não é mesmo? Mas, o que será que eles criaram a partir desta tempestade?

Há algumas semanas atrás, tive o privilégio de participar de uma experiência junto com alguns amigos, na qual o Guilherme, a Juliana e o montanhista profissional Máximo Kausch iriam testar uma cadeira adaptada para uma expedição que levaria a Juliana ao Acotango, montanha de mais de 6000 metros de altura, que fica na fronteira entre Bolívia e Chile.

 

Hey!! Mas, espere aí! Como viemos parar em uma montanha depois daquele assustador diagnóstico?!?!

Para entender isto precisamos contar a história deste singular casal, pois, um dos resultados daquele divisor de águas é um projeto chamado Montanha para Todos. Uma idealização do Guilherme e da Juliana para lidarem com a grande mudança que ocorreu em suas vidas. Por isto, eles nos concederam uma entrevista um pouco antes de partirem para a expedição de ataque ao cume do Acotango, para que a Juliana seja a primeira cadeirante a conquistar uma montanha de mais de 6000 metros.

Juliana e Guilherme

Guilherme e Juliana rumo ao Pico Araçatuba para testar a Julietti (Cadeira Adaptada para Montanha).

 

[Daniel R. Branco]: Podem contar um pouco da história de vocês? Há quanto tempo estão juntos, como começaram a praticar montanhismo?

[Montanha para Todos]: Nós estamos juntos há 13 anos e começamos acampando. Logo no primeiro ano de namoro fomos apresentados pelo meu irmão à escalada em rocha; nos apaixonamos e fomos estudar para aprender a escalar. Após uns dois anos escalando direto vimos que estávamos ficando muito solitários e fomos em busca de conhecer mais pessoas. Como a ideia foi fazer trilhas, conhecemos pessoas muito legais. No fim de semana seguinte fomos subir o pico dos Marins e adoramos a experiência...de lá pra cá, não paramos mais.

[Daniel R. Branco]: Vocês poderiam contar um pouco do adoecimento da Juliana e o processo de diagnóstico? Afinal, é uma síndrome bem rara. 

[MPT]: Foi algo bem rápido e inesperado. No segundo mês de gestação ela começou a sentir as pernas pesadas e os médicos achavam que era uma questão de circulação, porém em um intervalo de 2 meses ela já não tinha mais coordenação das pernas, mãos , braços e a fala ficou arrastada. Por isto, tivemos que começar a fazer uso de cadeira de rodas. Envolvemos mais de 30 médicos, sendo a grande maioria mais voltada para o lado acadêmico e de pesquisa pois estavam mais atualizados às novidades. Logo, enviamos um exame para os Estados unidos e começamos a ter uma forte suspeita de síndrome paraneoplásica, mas precisávamos fazer um pet CT para tentar concluir o diagnóstico, o que seria muito prejudicial para o Ben, então fizemos 3 ciclos de imunoglobulina humana para tentar controlar a piora e começamos uma busca por um hospital e médico que topasse antecipar o parto do Ben para podermos realizar o Pet CT. Conseguimos e antecipamos o parto para 7 meses, logo em seguida pudemos concluir o diagnóstico , degeneração cerebelar paraneoplásica.

[Daniel R. Branco]: Como foi para vocês o processo de e tratamento? E como foi que tomaram a decisão de não parar de fazer o que gostam?

[MPT]: Quando surgiu a suspeita do diagnóstico da Ju, vimos que estava caminhando para ser algo irreversível. Perguntei para Ju o que ela mais gostava de fazer e ela disse Viajar e subir montanha, então fiz uma promessa para ela que onde ela quisesse ir, eu a iria levar. Então, comecei a pensar em equipamentos que possibilitassem leva-la novamente para a montanha.

Inicialmente pensamos em criar uma bicicleta para fazer a carreta austral. Fiz o projeto, mas na metade do caminho surgiu a ideia de levar ela no aniversário para montanha, mas no momento só tínhamos a cadeira normal, do dia-a-dia. Foi muito difícil a subida com a cadeira normal, afinal ela não foi projetada para isto. Foi então que começamos a dar vida à Julietti (nome carinhoso que a Juliana deu para a cadeira projetada especialmente para montanha).

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[Daniel R. Branco]: O que vocês gostariam que as pessoas soubessem sobre o projeto Montanha para Todos?

[MPT]: Gostaríamos que todos soubessem da importância do voluntariado para conseguir manter o projeto ativo, não adianta nada distribuirmos cadeiras Juliettis se não tivermos quem ajudar nas atividades. Outro ponto forte é o pessoal participar e sentir a energia que tem cada atividade. Costumamos falar que é mais gratificante para quem ajuda do que pra quem vai sentado.

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[Daniel R. Branco]: Posso atestar que vi isto acontecer no teste da cadeira Guilherme, realmente todos tiveram uma experiência incrível!

[Daniel R. Branco]: O que vocês gostaria que as pessoas soubessem quando participam de uma trilha com uma pessoa com necessidades especiais?

[MPT]: Do bem que estão fazendo para a pessoa ali sentada, que muitas vezes acha que a vida se limita a hospital, casa e terapias ou, pior ainda, Às vezes acha que a vida acaba quando se tem limitações.

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[Daniel R. Branco]: O Brasil ainda não tem uma cultura de inclusão de PNE em todos os âmbitos, dito isto, há algo no comportamento das pessoas que incomode vocês em relação à Ju?

[MPT]: Uma coisa que incomoda bastante é que quase todo mundo vem perguntar para mim o que a Ju tem. As pessoas têm receio de conversar com uma pessoa com deficiência, acho que isso faz parte da inclusão e temos que quebrar estas barreiras.

[Daniel R. Branco]:Como vocês têm percebido a inclusão da Juliana e da Julietti nos grupos?

{MPT]: É algo muito legal!! Conhecemos as pessoas no dia e em poucos minutos já somos quase íntimos, todos querem ajudar, querem conversar, brincar... A Julietti une as pessoas. É uma verdadeira ferramenta que motiva o trabalho em equipe e exclui as diferenças.

Ah...e é uma fazedora de sorrisos!

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[Daniel R. Branco]:Em nossa cultura (Brasil), como vocês têm percebido a inclusão social de uma pessoa com necessidades especiais?

[MPT]: Ainda falta muito, mas o brasileiro é um povo carinhoso e amoroso. Não está difícil, mas o que falamos constantemente em palestras e eventos é que enquanto as pessoas com deficiência não saírem para a rua, enquanto ficarem escondidas apenas nas atividades de tratamentos, a inclusão não vai acontecer. Precisamos trabalhar a inclusão reversa, e isso só vai acontecer quando as pessoas especiais aparecerem.

Sabemos que acessibilidade é algo que aqui não existe, mas não adianta esperarmos tudo ficar acessível, pois não ficará. Por isso tentamos estimular ao máximo empresas e jovens estudantes para que pensem em soluções, serviços e equipamentos que possibilitem que um local não acessível se torne acessível a grandes intervenções, assim também aumentaremos a inclusão.

[Daniel R. Branco]:E que lugar melhor do que a montanha para demonstrar isto, não é mesmo? Quais os próximos planos de vocês?

[MPT]: Terça 10/07/2018 estamos embarcando para Bolívia para dia 15/07 iniciar a viagem expedição Montanha para todos , dando tudo certo a Ju pode se tornar a primeira montanhista cadeirante do mundo a subir uma montanha com + de 6000 metros de altitude.

Retornando da Bolívia começaremos a morar em nossa caminhonete adaptada, onde pretendemos viajar, durante 5 anos, pelo Brasil e pelo mundo.

Já com a ONG Instituto Montanha para Todos, esperamos em breve contar com vários voluntários para nos ajudar na questão administrativa e ter algumas empresas patrocinadoras para podermos desenvolver novos equipamentos para promover a inclusão e acessibilidade em outros esportes outdoor, assim como distribuir pelo Brasil estes equipamentos para que qualquer pessoa possa utilizar, sem custo.

As cadeiras Juliettis hoje, já são 23 distribuídas pelo Brasil, e queremos até o fim do ano que vem ter pelo menos uma em cada estado.

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No dia 25/07/2018 a expedição alcançou 5800m em direção ao Cume do Acotango.

[Daniel R. Branco]: Vocês gostariam de deixar alguma mensagem para as pessoas que lerem sua entrevista?

[MPT]: A vida pode ser muito boa mesma com limitações. Basta olhar para o que temos e não para o que não temos.

 

Conheça o projeto Montanha para Todos, pode acessar o site http://montanhaparatodos.com.br/ ou os perfis em mídias sociais Fecebook: https://www.facebook.com/montanhaparatodos/ e Instagram: @montanhaparatodos