Reclusão e Angústia – Poste depois de ler

 

“Tenho medo do futuro… Tenho medo de que isto tudo seja apenas um acidente”.

Assim começava uma série de publicações realizadas pelo ator e compositor Donald Glover em 2013, na rede social Instagram. Contrariando o padrão das redes, as postagens chamaram a atenção de fãs, mídia e colegas do ator; confusos, preocupados, entenderam como uma espécie de pedido de socorro, um grito de desespero. Esta história fica mais interessante com um salto 5 anos à frente no tempo. Glover, então já consagrado em Hollywood tanto no filme Solo, quanto na série Atlanta lança, em 2018, a impactante música This is America, onde demonstra sua capacidade de criar vários níveis de crítica à indústria cultural, utilizando sua própria máquina para propagar sua arte, infectando silenciosamente o mundo tanto com uma poderosa mensagem crítica sobre o racismo, quanto com uma ressoante demonstração do próprio ruído produzido pela mídia, para encobrir o sofrimento daqueles que têm seus corpos esgotados e objetificados pelos diversos ismos que permeiam as relações sociais.

Voltando a 2013. É possível que na ocasião o artista estivesse expressando seu real sentimento; porém, o efeito de suas palavras foi muito além de seu sentido direto; ao falar de medo e tristeza usando sua mídia pessoal, realizou o mesmo feito que mais tarde conseguiu com This is America; já que de dentro da própria rede questiona a realidade daquilo que as pessoas postam em suas mídias sociais. Em ato, demonstrando sua capacidade de elaboração em diversos níveis, conseguiu desferir um golpe do interior do próprio monstro, fazendo com que suas palavras fossem apenas o veículo para o verdadeiro soco no estômago, este sim, causado pelo meio que Glover utilizou para expressar sua mensagem. A mensagem em si, era apenas uma isca, assim como a dança em This is America tem a função de atrair o olhar e demonstrar como a mídia esconde o que se passa no fundo da imagem; chama a atenção para a verdadeira crítica que está no sentimento de fora-de-lugar que suas palavras causaram. Uma rede conhecida por fotos de momentos felizes, viagens, festas e paisagens, não comporta questionamentos sobre a vida, não suporta nada que fuja à imagem fantasiosa de felicidade e rendimento absolutos que, ali, são a norma. É desagregador demais para a imagem de perfeição, que todos oferecem em suas timelines. O feito de Glover alcançava, com isto, o efeito de uma verdadeira intervenção artística, como as definiu o filósofo alemão Christoph Turcke, ou seja, aquela que escapa à indústria cultural ao utilizar seu próprio maquinário mercadológico para criticá-la.

 

 

Infelizmente, as ações como as de Glover são um ponto fora da curva que não deixam de ter grande importância para apontar a relação que estamos construindo com estas redes precisam ser repensadas. Como aponta Christian Dunker, em seu livro Reinvenção da Intimidade, as mídias trouxeram uma espécie de sobreposição entre o público e o privado, um emaranhamento entre o íntimo e o compartilhado, na medida em que o indivíduo dá-se a ver; mostra a todo momento em seu canal pessoal o que, antes, era reservado a permanecer confinado ao lar, ou apenas conhecido pelos fisicamente mais próximos.

Mas, engana-se aquele que pensa que se pode mostrar tudo, nas redes a liberdade de expressão vai até o limite de sua própria constituição, pois cada um exibe uma parcela de sua intimidade milimetricamente calculada para conquistar o outro, pensada para gerar engajamento e otimizar a resposta do algoritmo. Calcula, anseia e sofre. Sofre na busca por um ideal de “intimidade” padronizado, sofre no medo de estar sempre deixando de ver e participar de algo (FOMO). A angústia do questionamento, como escancarou Donald Glover, não tem lugar neste álbum de intimidades fabricadas, de realidades filtradas; neste discurso altamente mediado, exibir o  sofrimento representaria um déficit moral, uma falta que dá testemunho de um indivíduo incapaz de acompanhar uma sociedade, por sua vez, cada vez mais pautada pela exigência de produtividade. É a árida realidade que deve manter-se sob o véu da Matrix.

 

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Matrix: Lana e Lilly Wachowski (1999)

 

Antes de pensar que  isolar-se Na Natureza Selvagem (2007) é única saída, vale lembrar que, como toda ferramenta as redes podem ser utilizadas para construir ou destruir; formas diferentes de uso geram resultados distintos. É inegável que elas possuem alguma funcionalidade principalmente nestes dias de isolamento social, causado pela pandemia do COVID-19, quando os corpos precisam estar fisicamente distantes, deixando o virtual como saída segura. Neste contexto, as redes sociais têm sido o meio de manter algum contato social com amigos e familiares, de comunicação de forma geral e até mesmo criar redes de discussão política ou de combate às Fake News sem, com isto, colocar a vida de muitos em risco. Entretanto, levantamentos sobre saúde mental apontam para altos níveis de sofrimento subjetivo como um conhecido efeito colateral, o que aponta para a necessidade de discutir seriamente o uso que tem sido feito delas, e como estas mídias usam o social como forma de usar o indivíduo como produto extremamente lucrativo para suas redes de anunciantes. Este aprisionamento subjetivo, nos leva a crer que a estrutura de funcionamento dessas redes faz eco com estruturas do próprio sujeito, algo que poderia ser resumido como um tipo de aplicativo atávico que em nós, seres atravessados pela linguagem, calcula incessantemente o que devemos mostrar ao outro para sermos amados; o que, neste caso, as mídias sociais habilmente traduziram em likes, comentários e republicações. Assim, a mídia pessoal de cada um, captura o desejo de fazer laço com o outro, de ser valorizado, mesmo que para isto seja necessário criar uma versão fantástica de cada um, uma versão social e midiática de si mesmo.

Isto não é um pressuposto único das redes, pois é claro que, sendo um ser social, o humano traz em sua estrutura esta tendência a fazer laços, a procurar formas de ser amado pelo outro; mesmo que para isto precise tentar anular seus próprios desejos; esta é, em linhas gerais, a novela de todo neurótico. Mas, quando há um dispositivo que faz um encaixe quase perfeito com esta estrutura subjacente, o resultado é uma edição, repleta de cortes, dos melhores momentos do dia de cada um, sejam espontâneos ou fabricados, apresentados constantemente em um carrossel de atividades, que vendem o melhor “way of life” ao estilo das mídias: Seja você mesmo, sendo igual a todos. Nesta edição, com cortes cirúrgicos do diretor, são exibidas práticas de yoga, trabalho, meditação, treinos, leituras, festas, escritos influenciadores e motivacionais e… Cansa só de escrever!

Cansa, mais ainda, de tentar acompanhar, replicar e acreditar nesta vida paralela das redes, que se tornou um simulacro de filme editado para ser uma versão feliz, inteligente e autogerida da vida de cada um. Cansa, como diz o filósofo Byung-Chul Han (A Sociedade do Cansaço) de ser este empresário de si mesmo; um autogestor constantemente cobrando rendimento otimizado, no trabalho, na vida social, nos relacionamentos românticos, até mesmo no descanso durante o isolamento social. Cansa e gera ansiedade que, como mais um produto a ser eliminado pela indústria do bem-estar, também entra no ciclo de exigências: o que você está fazendo que não está trabalhando para controlar esta ansiedade?! Como não consegue dormir 8 horas ininterruptas diariamente?! É um loop eterno de uma mente sem descanso (Michel Gondry – 2004).

Esta angústia por rendimento, e o medo constante de que estar perdendo algo muito importante, não são novidades. Elas estavam aí; um vírus ideológico que vem se reproduzindo há pelo menos meio século, um vírus de sintomas brandos, que utiliza o maquinário do capitalismo selvagem para disseminar-se entre o homem, o primata menos sustentável (Titãs – 1985).

A diferença, a novidade que o isolamento social trouxe é que estas falácias não colam mais. Não colam mais, pois a partir do momento que as limitações passaram a ser de todos, a partir do momento que outro vírus – desta vez real – colocou todos em um jogo que obriga a avaliar as ações mais cotidianas, a dúvida começa a surgir, o preço do tempo começa a ser levado em consideração e os padrões anteriores de rendimento são desmontados. Perdem a cola, já que o vírus imaginário do passado insistia em defender que não é possível parar, que parar seria o fracasso de nossa sociedade, enquanto o vírus real – SARS-CoV-2 – mostrou à força que é possível parar, que a locomotiva da produção não é um moto perpetuo. É possível parar e observar que a Natureza responde imediatamente a isto, dando sinais de seu alívio. É preciso parar, mesmo com todas as dúvidas que isto nos traz;  pois sem todo o ruído, sem todo o barulho do rendimento a todo custo, há que se estar com os filhos, que se defrontar com laços ignorados, que pensar nos que estavam à margem da produção capitalista, já que a continuidade depende de manter viva ainda alguma coesão social, há luto pelo que irá ser perdido, seja econômica ou socialmente. Mas, além de tudo isto, há que se avaliar para onde iremos voltar!

 

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A cordilheira dos Himalaias reapareceram para uma vila indiana após 30 anos de encobrimento pela poluição.

 

Bruno Latour, um filósofo contemporâneo, lembra que a crise do Corona vírus é apenas uma prévia da crise global que está, há décadas, sendo construída pela degradação ambiental. Talvez o normal, a norma anterior, não retorne mais, cabendo a todos delimitar qual será a nova norma; pois, quando o real bate à porta, ou foge-se para a negação delirante, ou enfrenta-se com coragem o vírus que já estava aí mas, com muito esforço, vinha sendo ignorado, mesmo dando notícias de sua existência no alto nível de sofrimento, no mal estar, na ansiedade diária e na sintomática exposição de uma intimidade fantasiosa nas redes sociais; fantasia que começa a cair por conta de um rasgo na realidade pandêmica de nossos dias, forçando o questionamento sobre o que cada um tem buscado naquela, velha, fantasia. Uma parada forçada que nos dá a oportunidade de questionar onde estamos e para onde queremos ir, sem garantias de sucesso, mas uma aposta indispensável e uma pergunta ainda em aberto. Por isto, lembre-se, se encontrar a sua resposta, não se esqueça de postar.

 

Referências:

Dunker, C. I. L. (2017). Reinvenção da intimidade: políticas do sofrimento cotidiano. São Paulo: Ubu.

LATOUR, Bruno. Down to Earth: Politics in the New Climate Regime. Medford: Cambridge, 2018.

Análise de This Is América: https://www.youtube.com/watch?v=gvsQ09wM-bU&t=9s 

ZIZEK, Slavoj. Bem-vindo ao deserto do real. Trad. Paulo Cezar Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2003.

Os Riscos do Uso de Medicamentos Benzodiazepínicos

Já ouviu falar em medicamentes Benzodiazepínicos?
Você pode não reconhecer o nome, mas certamente já ouviu falar deles por seus apelidos comerciais, como aquele famoso que começa com Ri e termina com: vo Tril
Estes estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo e, segundo alguns estudos, os mais consumidos entre idosos e mulheres. São receitados sob as vestes de solução para o sofrimento humano porém, esta promessa ilusória e esta bilionária indústria escondem um fato pouco animador:
Tamponar ou calar o sintoma quimicamente tem seu custo, e pelo que sugere este artigo canadense, é um alto custo.
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Um estudo canadense fez um levantamento da mortalidade de usuários destes medicamentos dentro de uma população de usuários de outras drogas e dos dados são alarmantes.
Embora não seja um estudo feito com a população geral, o estudo trouxe um alerta, pois o uso dos benzodiazepínicos foi associado a um ALTO ÍNDICE DE MORTALIDADE quando comparado às outras substâncias em abuso.
Link para o artigo:
The Impact of Benzodiazepine Use on Mortality Among Polysubstance Users in Vancouver, Canada (2016).

Mindfulness: Dicas para iniciar a prática em casa e obter os benefícios para sua Atenção e Foco

Mindfulness: Dicas para iniciar a prática em casa e obter os benefícios para sua Atenção e Foco?

Veja estas dicas no vídeo:

 

Vídeo Completo: https://www.youtube.com/watch?v=AAsoM4v13Ww

 

Instagram: @branco_daniel

Lembrando que Mindfulness não é relaxamento, mas este pode ser um de seus resultados. Por isto, sentar-se de forma “solta” na cadeira, ou em posição deitada, vai gerar um relaxamento que dificulta estar presente no momento, perceber a respiração e os estímulos internos e externos… Esta presença sim, é o objetivo da Mindfulness.

Assista o vídeo e dê os primeiros passos, em qualquer lugar, com apenas 5 minutos.

 

Esteja presente: desconecte-se!

Você tem dificuldades para organizar suas tarefas diárias? Dificuldades para definir prioridades, ou para manter a atenção por períodos mais longos em uma tarefa?

Se você respondeu que sim, está entre a grande maioria da população que vive conectada. Pesquisadores recentemente relacionaram a atividade de multitarefas diretamente com a dificuldade de focar a atenção e definir prioridades para suas tarefas do dia-a-dia. Multitarefas é a contemporânea necessidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, como estar no trabalho respondendo ao WhatsApp, acompanhando o instagram, checando os e-mails pessoal e do trabalho e ainda com mais duas ou três planilhas de trabalho abertas. A melhor representação, são aquelas várias janelas e aplicativos abertas em seu desktop, ou celular ao mesmo tempo.

A informação valiosa que estes pesquisadores descobriram, foi que a atividade multitarefas “desprograma um aplicativo natural” que nos auxilia tanto a saber o que é prioridade, quanto a manter a atenção focada nesta tarefa. Esta “desprogramação” tem efeitos sérios na qualidade de vida das pessoas, pois atrapalha desde o autogerenciamento (organizar sua vida, seus horários, suas tarefas) até a relação (presencial) com outras pessoas, pois é necessário ser capaz de focar no que a pessoa está falando, em sua tonalidade de voz e expressão facial para poder gerar uma relação empática e agradável. Na falta disto uma mera conversa de 30 segundos é quase uma tortura para se manter atento à outra pessoa… soa familiar?!

A boa notícia é que, de alguma forma, a atividade multitarefas gera um melhor desempenho para responder bem a treinamentos em focar a atenção. Exatamente isto! No estudo, usaram sessões diárias de mindfulness (atenção plena) e os resultados foram promissores. Os participantes que tinham uma rotina com grandes períodos de atenção à multitarefas (talvez o padrão geral na atualidade), tinham os piores resultados em atenção focada, mas também demonstraram uma melhora mais acelerada em sua atenção focada depois de práticas de mindfulness.

Portanto, se você tem dificuldade em definir suas prioridades, em executar uma tarefa complexa com qualidade, dificuldade em estudar ou mesmo em manter uma conversa atenta com outra pessoa, a prática de mindfulness de forma constante, como indicam as pesquisas, trará grandes benefícios para sua saúde mental. Existe um benefício também em procurar se desconectar por períodos específicos, como por exemplo, se distanciar do celular e de outras “janelas” que possam atrair sua atenção para poder focar na execução de um trabalho de forma mais integral, ou mesmo simplesmente fazer o exercício de ler um livro sem qualquer interferência… Esteja presente no que estiver fazendo.

Já pensou em desligar os celulares quando estiver em uma situação social e dedicar sua atenção às pessoas que estão presentes? Sim, é possível, antes dos celulares as pessoas sobreviviam desta forma…

Porém, os resultados desta pesquisa deixam uma outra questão no ar: Será que a forma como utilizamos a tecnologia na atualidade não contribuiu para a enxurrada de diagnósticos de déficit de atenção nos últimos anos? Aguardem os próximos capítulos.

Portanto, desconecte-se da rede e conecte-se com você e com seus semelhantes. Seu cérebro agradece.

 

 

 

 

Referências:

 

1) E. Ophir et al., “Cognitive Control in Multi-taskers”. 2009.
2) Gorman e Gree, “Short-therm Mindfulness intervention reduces the negative attentional effects associated with heavy media multitasking” 2016.
3) Mrazek et al. “Mindfulness Training improves working memory capacity and GRE performance while reducing mind wandering”, 2013.

As ansiedades / É normal sentir ansiedade?

Você já se sentiu ansioso? Angustiado*? Acredite, isso pode ser um bom sinal: significa que você está vivo!images

É claro que existem níveis de ansiedade que podem não ser saudáveis – e é disso que falarei agora, tomando como base a Psicanálise, e várias indicações científicas atuais sobre o tema. Como vou simplificar alguns conceitos, no final deixarei indicações de leitura para quem for da área e/ou quiser saber mais sobre o assunto.

Sim, parece contraditório dizer que alguém está vivo se está se sentindo ansioso, mas na verdade, a ansiedade está a serviço da autoconservação. Basicamente, a ansiedade, é uma resposta normal, que o Ego (parte da nossa estrutura psíquica) dá a uma situação de perigo, que pode ser interna ou externa.

Portanto, uma ameaça externa é algo fácil de visualizar e entender, mas e no caso de uma ameaça interna, como isto seria? Para responder isto, precisamos pensar em algumas diferenças que nós, humanos, temos dos outros animais que conhecemos.

 

A capacidade Humana de perceber perigos reais e criar perigos simbólicos

O perigo pode ser algo muito real e externo a você, como um predador, ou então o resultado da atividade simbólica (exclusividade do animal humano) que, embora não seja um perigo real que está fisicamente na sua frente, é a possibilidade de que este perigo aconteça e todas as ligações simbólicas que o sujeito irá fazer singularmente de acordo com sua história, com todas as suas experiências de vida, conscientes ou inconscientes.

Se para os outros animais a resposta é mais direta: Presença real do perigo à medo (respostas fisiológicas) à ação (luta ou fuga). No animal humano, além da possibilidade de responder a uma ameaça fisicamente presente e comunicar sobre ela, a linguagem torna nosso processo de resposta muito mais complexo. Mas, aqui você deve estar pensando que sim, você sabe que outros animais também se comunicam. Isto é verdade, porém, a linguagem que conseguem desenvolver é apenas em relação direta ao que estão comunicando, ou seja, você pode ver um macaco sinalizando a presença de um leão, real, presente naquele momento, mas não desenvolvem atividades simbólicas abstratas. O que quer dizer que, certamente, não o verá sentado em sua posição de vigia do bando, falando sobre sua preocupação de que ele não seja um bom macaco e possa mostrar seu valor para os outros do bando caso venha a aparecer um leão, nem em conflito com seu papel social como vigia. Macaco é macaco. Leão é leão… Corra!

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O animal humano é atravessado pela fala (linguagem) de forma mais complexa, possibilitando que a palavra “leão”, possa ser uma infinidade de outras coisas. Desde um perigo real que exige trabalho físico, até um conjunto de símbolos coletivos que podem indicar força, virilidade em algumas culturas, a bandeira da casa dos Lanisters em GOT, ou então um indicador de algo vinculado a uma experiência pessoal, singular a cada um, como por exemplo um personagem de um desenho assistido durante a infância que traz diversas lembranças (Thundercats, Simba?!).

Ou seja, nossa linguagem nos permite criar uma infinidade de referentes diretos e indiretos a uma palavra, criar conceitos e abstrações dos mesmos, mas também nos possibilita planejar o futuro e lembrar do passado e com isto, claro, nos possibilita também que nos preocupemos com eles e com todas as possibilidades que desejamos ou tememos que aconteçam.

Podemos usar como exemplo de perigo simbólico, mais comum para nós que não vivemos entre leões, uma prova de faculdade. A possibilidade de você tirar uma nota baixa e reprovar é, de certa forma, um perigo, uma ameaça àquilo que você acredita que esperam de você, além de poder trazer prejuízos práticos no futuro, como uma reprovação. Portanto, pode ser motivo de ansiedade, embora a ameaça não seja real e esteja ela na sua frente, a prova é apenas uma parte de tudo aquilo que você considera ameaçador, neste caso possibilidades futuras e representações simbólicas; portanto, internos e simbólico.

Em casos onde há sintomas relacionados à ansiedade, ou esta mesma se apresenta de forma constante e desvinculada de contexto, existe ainda a possibilidade de ser um resultado de uma ameaça ainda mais “interna”, pois seria uma reação do Ego (a instância psíquica responsável pela sua noção de Eu, pelo menos da parte consciente) a um desejo ou pensamento que gera conflito. Um pensamento, um desejo que entra em conflito com sua visão de eu, mesmo inconsciente, gera ansiedade. Por exemplo, o desejo de matar um chefe muito chato, pode ser reprimido caso isto entre em conflito com a visão de boa pessoa que o desejante tem de si, gerando angústia. Claro, existem pensamentos muito mais conflitantes e que precisam ficar inconscientes para não gerar ainda mais ansiedade, mas falaremos mais sobre casos patológicos à frente.

Já um perigo físico, real, é mais fácil de imaginar por exemplo se pensarmos novamente em um leão à espreita. Não preciso dizer o tipo de prejuízo que um ataque de leão traria a você, certo?

Os dois tipos de perigo exigem que você tome uma atitude para, de alguma forma, encontrar uma solução e eliminar a fonte de ansiedade. Desviar o olhar e fingir que o problema não existe, como avestruz que “esconde” a cabeça no buraco, só traria problemas. Principalmente no caso de um leão à espreita.

De uma maneira ou de outra, os dois tipos de situação podem gerar uma resposta que seria um aumento significativo de atividade psíquica. Somado a isto, nosso Ego trabalha para manter um nível de energia psíquica constante, e quando alguma situação eleva demais esse nível, temos… ansiedade. O que nos leva ao próximo ponto, que é…

 

Ansiedade descontrolada

Em alguns dos exemplos acima, a ansiedade serve como um incentivo, um desconforto que incentiva você a agir. No caso da prova, uma boa atitude aproveitar a energia que te coloca em movimento para se preparar para prova, mas também compreender que é totalmente normal e esperado estar ansioso, além de reconhecer também que outras pessoas que farão a prova certamente também estarão ansiosas por mais que se esforcem para mostrar o contrário – você não está sozinho – mantendo assim a ansiedade em um nível que te motive a agir, mas não te atrapalhe na ação em si. No caso do leão, a solução óbvia seria fugir para um lugar seguro.

Há casos em que a ansiedade não tem uma motivação clara, ou é totalmente desproporcional em relação ao motivo causador (como por exemplo ter uma crise de pânico por causa de uma prova da faculdade).

A ansiedade patológica, não surge de uma maneira conveniente, ou adaptativa. Ela aparece de maneira inadequada, e gera a sensação para a pessoa que a sente de não ter motivação alguma. O que leva muitas pessoas a procurarem auxílio de medicamentos por entenderem que, se você não consegue apontar o motivo diretamente (como o leão, ou a prova), então o motivo não existe. Mas, é aqui que precisamos lembrar que como nossa linguagem funciona de forma complexa, um leão não necessariamente, é apenas um leão. Portanto, uma crise desproporcional de ansiedade pode ter gatilhos disparados inconscientes que aparentam não existir, mas aparecem de forma clara após um tratamento psicoterápico bem direcionado.

Nesses casos, o mais indicado seria buscar auxílio profissional de um psicólogo para descobrir causas “escondidas” ou trabalhar para retomar um nível “normal” de ansiedade. Não existe uma fórmula mágica para estes casos, o uso de medicamentos traz diversos efeitos indesejados, provavelmente piores do que a ansiedade em si, e a psicoterapia é um processo contínuo e progressivo (como “matar um leão por dia”) mas certamente recompensador no final, quando o leão simbólico não mais se apresenta como uma ameaça.

Nesta época do ano é muito comum nos sentirmos ansiosos, pensando nos desafios que o próximo ano poderá trazer. Espero que tenha ficado claro que é normal, até mesmo necessário, sentir ansiedade em algum grau – e que um profissional pode ajudar em caso de necessidade.

Referências:

  • Freud, S. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901).
  • Jerusalinsky, A. e Fendrik, S. O Livro negro da psicopatologia contemporânea (2011).
  • Freud, S. Novas conferências introdutórias à Psicanálise (1933).
*Ansiedade e angústia são duas palavras comumente utilizadas para o mesmo fim, definidas pelo dicionário por um grande mal-estar físico e psíquico, estando também ligadas a um sentimento de ameaça impreciso e indeterminado. Freud utilizava no alemão o temo Angst, que pode ser traduzido tanto por angústia, quanto medo, porém utilizaremos a palavra mais comum: Ansiedade.

A Normopatia Contemporânea

Vivemos uma época em que a patologização do comportamento chegou a um discurso extremo que se assemelha a uma espécie de “normopatia”, ou seja, uma extrema necessidade de definir a normalidade, o que é ou deixa de ser aceito pelos padrões funcionais da sociedade; criando como consequência o seu negativo, ou seja, a necessidade de classificar tudo que escapa desta norma definida pela ciência ou outras instituições como, obviamente, patológico… Doença a ser tratada. Tem sido assim com estados de humor, aparecendo aí as depressões e bipolaridades sendo diagnosticadas a qualquer sinal de desvio do “normal”*, e está sendo assim agora, com uma regulamentação que vem da esfera jurídica sobre um possível tratamento da homossexualidade.

Ora, se pensarmos em um ser no qual hipoteticamente possamos separar por completo o corpo fisiológico do “mental”, assim como tentou Descartes e ainda atentam tantas linhas de pensamento; talvez fosse realmente possível definir o que deveria ser um comportamento evolutivo, geneticamente definido e garantido por nossos instintos parece ser possível com nossos paralelos do restante do reino animal.

Porém, não podemos esquecer que, embora sejamos sim pertencentes ao reinos animal, somos um animal atravessado pela linguagem, fazendo com que nosso corpo instintivo (ou pulsional em algumas traduções de Freud, lá em 1915) não tenha um objeto determinado, estanque, quando falamos em relação à sexualidade e também em relação à outras vias de satisfação.

Isto faz com que sejamos, em nossa formação enquanto indivíduos, inicialmente abertos a todas as possibilidades de trilhamentos para esta satisfação instintiva, ou como definiu Freud, o ser humano em sua constituição é Polimorfo. Portanto, mesmo que venha a definir sua satisfação instintiva (ou pulsional) no formato heterossexual, existe em um segundo plano, mais ou menos reprimido por cada um, um resquício da possibilidade de satisfação homossexual. É aí que aparecem os moralizadores com sua irresistível necessidade de caçar ferrenhamente no outro, aquilo que o habita, mesmo que debaixo de muitas camadas.

Concluindo, se em uma ser no qual a satisfação instintiva é definida em seu amadurecimento, mas é em sua cerne polimorfa, mantando as antigas vias de satisfação como possíveis mesmo que reprimidas, ou direcionadas para pequenas fontes de prazer similares (sublimadas), então se falarmos em uma possibilidade do profissional da saúde aceitar a homossexualidade como passível de cura, ele precisa necessariamente aceitar também a heterossexualidade para o mesmo fim. Se, neste contexto, existir uma cura homossexual, pode-se pensar em uma cura heterossexual.

A Psicanálise entende que o sujeito não tem uma forma única e correta de funcionamento a ser definida, e imposta, pelo tratamento. Pelo contrário, entende que o tratamento em si é possibilitar que cada um possa lidar com sua forma própria de lidar com seus desejos. E sim, ela vai ter seus furos, dificuldades e sofrimentos em qualquer uma das possibilidades.

Quem sabe, ao invés de tentarmos desesperadamente “normalizar” o mundo, possamos aceitar cada vez mais as diferenças e entender que elas podem sim, gerar saídas muito criativas para esta arte tão complexa que é o viver.

*O que não implica na inexistência destes quadros, mas que o seus diagnóstico passou por um “afrouxamento” a ponto de qualquer desvio daquilo considerado como normal ser passível de tratamento baseado em medicamentos. Em geral a depressão, a bipolaridade e os quadros infantis relacionados à aprendizagem, passaram a ser medicados não apenas em casos agudos, na medida que todo desvio passou a ser considerado agudo…

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Automatismos Modernos, O Estranho e os Zumbis:

Cambaleantes, famintos por carne humana e sem qualquer resquício de humanidade ou memória de suas antigas vidas. São estas as características deste personagem imaginário que recentemente passou a protagonizar os enredos a terem sucesso de público na literatura, cinema, jogos eletrônicos e televisão. Para aqueles que têm acompanhado as produções atuais destas mídias, fica fácil perceber a estranha presença dos zumbis.

A influência parece ser tanta que, mesmo na literatura medieval, onde seria difícil imaginar um zumbi, deu-se um jeito de inseri-lo afim, é claro, de satisfazer a maior fatia possível do mercado de tendências. Como nos romances épicos de George R. R. Martin – A Game of Thrones – nos quais os mortos retornam para caçar os vivos durante a noite. Ainda que esta inserção pareça forçada, o autor cede à exigência de que, se a meta é o sucesso de vendas, os mortos-vivos têm que estar presentes na trama.

Seriam estas criaturas resultado deste começo de século? Aqui faz-se necessário um breve levantamento histórico.

A presença dos zumbis ganhou força em filmes de horror dos anos 80, porém já em 1839 há um interessante conto de Edgar Allan Poe (The Fall of the House of Usher), considerado o pai dos gêneros do suspense e horror, que retrata uma situação muito similar, levantando a possibilidade de que os zumbis já “existem” há algum tempo.

Esta criatura que ressurge do mundo dos mortos para alimentar-se de carne humana está presente na mitologia de variados locais como Europa, Ásia e África. Sua raiz histórica pode remontar à narrativas de mais de quatro mil anos, como na epopeia de Gilgamesh, na qual a deusa Ishtar ameaça abrir os portões do submundo para que os mortos venham alimentar-se da carne dos vivos (PLATTS, 2013). Porém, há algum consenso de que a invasão midiática dos zumbis se deu pelo intermédio das expedições militares norte-americanas ao Haiti, iniciada em 1915, onde a apropriação da figura folclórica do povo haitianos seria de um parente, já morto, que andaria descerebrado pelas ruas (Ibid.)

Sempre que uma produção humana ganha uma forte adesão e perdura por gerações, como têm se mostrado os zumbis e suas variantes, é possível interrogar o que desperta tamanho fascínio. A exemplo do psicanalista Bruno Battelheim com as histórias infantis e de Freud com obras da literatura, um possível caminho é interrogar o que na vida psíquica dos indivíduos estas produções podem estar integrando. Sob esta perspectiva, algumas questões podem ser levantadas.

Uma forma de pensar este fenômeno utilizando o método psicanalítico é interpretar aquilo que expõe além da impressão inicial. Ou seja, dar um “passo” acima do discurso diretamente exposto. Embora vários fatores possam emergir deste tipo de análise, para este ensaio serão levantadas duas questões que parecem destacar-se. A primeira diz respeito a algo que se move de forma automática, impulsionado pela fome, sem pensar: um autômato. Acrescenta-se a isto a representação de um corpo humano, de carne e ossos, mas que já não é vivo internamente, não tem memória, não tem julgamento nem cultura e, portanto, não pode mais ser considerado humano.

Freud, em 1919, escreve O Estranho, trabalho no qual faz uma analogia entre a literatura e personagens e situações capazes de fascinar por sua estranheza, por causar inquietação. Como isto fascina tanto no sentido do estranho, aquilo que nos é Unheimlich (estranho, o título do texto), mas também atrai por manifestar algo que obscuramente move-se no interior psíquico de todos, algo de familiar, algo de Heimlich (a mesma raiz da palavra estranho em alemão serve para familiar). Neste texto, o pai da Psicanálise analisa também, dentre outros personagens, a figura do autômato que assim como os zumbis causariam inquietação também pela dúvida em relação à sua humanidade, uma cópia teoricamente vazia.

Pensando sobre este aspecto, o zumbi parece pertencer à categoria de autômato, assim como também daquele que fascina por trazer aquilo que estaria nas sombras do ser, mostrando algo de seus desejos encobertos. E quais desejos poderiam ser estes?

É interessante pensar que é em algumas produções culturais que desejos proibidos poderiam ser atuados de formas simbolizadas ou, no mínimo, seguras para o indivíduo. Pensando no zumbi como um ser humano, mas que por algum motivo o deixa de ser, o grande mote destas produções está em matar um semelhante – que se assemelha a um humano mas, neste caso, não é – sem as consequências que isto teria: poder matar sem que seja um ato de assassinar. No caso das histórias de zumbis, este desejo poderia ter sua catarse escapando de forma segura às punições internas do superego. Mata-se o simulacro, realiza simbólica e parcialmente um desejo e escapa do risco de qualquer punição.

A própria noção de autômato, pensado como aquele que age sem uma intermediação do pensamento, talvez tenha alguma relação com o indivíduo, pois distante de seu próprio agir, alienado de si, anestesiado de seu próprio mundo interno e que deseja apenas atuar no mundo em busca da satisfação. O filósofo alemão Theodor Adorno usa o termo “máscara mortuária” para definir o sujeito alienado de si, que perambula pela vida, de forma análoga ao que presenciou em campos de concentração nazistas quando o indivíduo se comportava como um morto-vivo até se agarrar à cerca elétrica para morrer; desta forma eles sabiam de antemão que o indivíduo iria para a cerca. É fácil uma analogia ao sujeito alienado de si, que não vai diretamente para a cerca, mas perambula pela vida como um morto-vivo, um autômato.

Portanto além da catarse de desejos e do estranhamento causado por algo de familiar oculto nestas fantasias, o apocalipse zumbi venha denunciar algo sobre o modo de vida da atualidade. E nada mais psicanalítico do que pensar que é a escuta diferenciada do analista que pode oferecer uma saída a esta alienação, ao desejo não dito que compulsivamente se repete, para que talvez se possa agir menos de forma automática e mais de forma integrada.

* Artigo publicado originalmente no jornal Psicologia em Foco (Julho de 2012), disponível em: http://www.grupopsicologiaemfoco.com.br/media/uploads/jornais/Psicologia_em_Foco_-_FINAL.pdf

Para saber mais:

  • Adorno, T. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar: 1944/1985.
  • Freud, S. O Estranho. São Paulo, Companhia das Letras: 1919/2011.
  • Freud, S. Totem e Tabu. Rio de Janeiro, Imago: 1913/2006.
  • LUCKHURST, R. Zombies: A Cultural History. Londres: Reaktion Books Ltd, 2015.
  • PLATTS, T. K. Locating Zombies in the Sociology of Popular Culture. Sociology Compass, v. 7, n. 4, p. 47–560, 2013.
  • POE, E. A. The Cpllected Works of Edgar Allan Poe. Londres: Wordsworth Library Collection, 2009.

     

Os Games e o Virtual: O que está em Jogo?

Recentemente tenho recebido algumas perguntas em relação a jogos de videogame e computador com os quais crianças, adolescentes e mesmo adultos vêm dedicando cada vez maior quantidade de tempo. Por esta razão, e também por acreditar que seja um fenômeno importante, tentarei em algumas linhas abordar o tema.

Os jogos e sua realidade hoje:

De acordo com a União internacional de telecomunicações[1] no início de 2010 estimou-se que mais de 479 milhões de pessoas em todo o mundo utilizavam algum serviço de acesso a dados da internet, o que equivale a um aumento de 445% em relação ao ano 2000[2]. No início de 2010 os jogos online tomaram a posição dos correios eletrônicos como segunda utilização mais comum deste contingente, ficando atrás apenas dos portais de relacionamento – segundo pesquisa publicada pela Nielsen Company[3].

As novidades na área dos jogos têm sido constantes, criam-se jogos cada vez mais realistas em termos de imagem e som, nos quais o jogador deve interagir com uma quantidade enorme de recursos de jogabilidade, culminando mais recentemente em games com leitores de movimento corporal, dispensando em parte – ou totalmente – o uso de controles e botões.

Um dos segmentos de maior crescimento nesta indústria são os jogos online para grandes massas de jogadores, conhecidos como MMOMassively Multiplayer Online – sendo World of Warcraft o jogo mais popular com cerca de 12 milhões de assinantes em todo o mundo. Diferente dos jogos tradicionais, os MMOs possibilitam que centenas de jogadores se conectem através de um servidor central para jogarem ao mesmo tempo, sem um destino pré-definido e no mesmo “mundo virtual”.

Pode-se falar em mundos virtuais, pois estes são contextualizados de acordo com cada jogo, tendo sua própria economia, raças, profissões, sistema de transportes, redes sociais, uma história própria, além de várias outras possibilidades que os tornam atrativos de jogar e cada vez mais complexos.
Embora os consoles de videogame estejam convergindo para os jogos online, em sua maioria estes ainda precisam de um computador ligado à internet como principal suporte. Alguns destes jogos possibilitam reunir centenas de jogadores em uma mesma rodada.

Assim, podemos pensar em algumas ideias com relação a estes jogos, nossa cultura e os jogadores como indivíduos.

 Por que jogamos e o que está em jogo?

Sempre que há uma grande adesão cultural em relação a alguma atividade, podemos voltar nossa atenção para o que nesta atividade “fisga” o indivíduo, ou quais processos psíquicos estão ali envolvidos. Com os jogos não seria diferente, tendo em vista a grande aceitação do público fica claro que não se trata de algo de menor importância.

O que se tem notado é que entre uma enorme variedade de títulos que esta milionária indústria tem criado, os jogos mais vendidos envolvem algum tipo de enfrentamento de inimigos, seja de forma mais realista e bélica, ou mais infantil. Portanto, lendo o jogo como um texto, é possível dizer que estes jogos têm em seu pano de fundo alguma relação com a agressividade. Alguns utilizam esta ideia de forma direta, como os jogos de guerra, enquanto outros o fazem de forma lúdica, deixando a agressividade fluir para figuras de monstrinhos – por exemplo, nas tartarugas mal humoradas do jogo Mario.

Isto indicaria ser necessário um ambiente virtual para dar vazão à alguma agressividade? Talvez os processos envolvidos não sejam tão simples assim, mas em seu famoso ensaio O Mal Estar na Civilização (1930), o fundador da Psicanálise nos permite traçar algumas possibilidades.

Neste texto de 1930 Freud discorre sobre a dicotomia da aquisição/manutenção da felicidade e do processo civilizatório, considerando que a mesma civilização que nasceu da necessidade de evitar as fontes de sofrimento, acaba sendo responsável pela frustração do indivíduo. O processo civilizatório tem o intuito de “proteger os homens contra a natureza e ajustar os seus relacionamentos mútuos” (FREUD, 1930), ou seja, proteger a sociedade contra os processos pulsionais (ou instintos) e regular nossos relacionamentos sociais, a fim de que estes não estejam sujeitos a uma vontade, ou desejo arbitrário. Porém, esta própria civilização diminui a liberdade, já que o próprio conceito exige restrições e a justiça exige que ninguém fuja a estas restrições, que ninguém fuja à renúncia aos instintos; é exatamente esta renúncia um dos fatores de frustração, sendo que pressupõe a não satisfação de pulsões poderosas, gerando uma frustração social.

Dentre as renúncias exigidas pela vida social, a satisfação sexual pode ser destacada em paralelo à agressividade. A necessidade de uma adaptação social e bom relacionamento – pelo menos com o grupo próximo – exigiu do Homem um grande controle das pulsões agressivas. Em vista das necessidades impostas pelo princípio do prazer, pela agressividade afigurável no homem, o indivíduo encontra-se dividido, descontente em um limbo entre suas vontades de satisfação individual e as exigências sociais impostas pela civilização.

Desta forma, podemos pensar em vários exemplos de atividades humanas nas quais a agressividade, impossibilitada da passagem ao ato, tem um destino mais aceitável pelas imposições da civilização. Talvez, uma parte da grande atração destes jogos seja o fato de possibilitarem que uma violência simulada (ou real no caso de prejudicar outros jogadores) seja praticada sem que isto seja um atentado às leis e regras sociais.

Se esta é uma das motivações para o ato de jogar, então poder-se-ia concluir que não deveria haver preocupação quanto a isto? Acredito que não seja tão simples assim.

Algumas pesquisas mostram que adolescentes passam aproximadamente 14 horas por semana envolvidos em algum tipo de jogo eletrônico. Porém, a experiência na clínica com adolescentes indica que este número é provavelmente maior; mesmo não falando de casos específicos onde o tratamento estaria ligado ao jogo, mas sim de adolescentes que têm estes jogos apenas como uma atividade comum em seu dia-a-dia superando duas horas diárias por larga margem.

Como toda atividade constante e regularmente praticada traz algum efeito sobre aquele que a pratica, podemos pensar em quais efeitos, ou quais repercussões, para o Sujeito que estes jogos podem facilitar. Lembrando que, embora o número de adultos que se dedicam a estes jogos seja significativo, o grande público desta atividade está ainda em fases de formação, de desenvolvimento e, portanto, mais vulneráveis em seu processo de tornar-se indivíduo.

Alguns autores, entre eles o filósofo alemão Christoph Türcke, defendem que a inundação de estímulos provocados pela torrente de imagens destas mídias exercita algo que pode ser chamado de uma “distração concentrada”. Embora o termo seja ambíguo, á na verdade cheio de sentido, pois denota que enquanto uma imagem singular promoveria a atenção focada, bilhões destas imagens fazem o contrário mantendo o indivíduo concentrado neste turbilhão, sendo porém mantido distraído de todo o resto por longo período.

Portanto, o grande “treinamento” facilitado por estes longos períodos resultariam, como facilmente se poderia pensar, não em uma grande capacidade de concentração e processamento, mas sim em uma incapacitação para o pensamento complexo e a reflexão, corroborando a preocupação do sociólogo Zigmunt Bauman – autor do livro Modernidade Líquida – quando diz que na era da informação arriscamos um neo-analfabetismo.

Porém, tão ou mais preocupante, é que esta incapacitação ao ato de refletir pode estar colaborando para um afastamento cada vez maior do indivíduo da sensibilidade e da possibilidade para enfrentar suas questões e frustrações. Parafraseando o C. Türcke: “A repetição de imagens que vivemos é uma forma de não lidar com a dor, com o que achamos que é terrível”. Um efeito comparado ao das drogas em seus usuários.

Paralelamente, algo que a mídia tem frequentemente demonstrado quando fala de jogos, é um grande medo em relação à possibilidade de fuga da realidade por parte do jogador, ou o medo de que os jovens comecem a repetir os comportamentos violentos dos jogos com seus colegas. Contudo, isto não tem se mostrado verdade e apenas uma pequena parcela corre este risco em função de processos patológicos que dificultariam estas pessoas a diferenciarem aquilo que é fantasioso (o jogo) de sua vida real. Nestes casos a patologia não está relacionada ao jogo, mas sim a uma estrutura prévia do indivíduo.

A grande violência dos jogos não está neste tipo de risco, mas sim na alienação que o jogo pode causar e nas dificuldades de desenvolvimento de algumas atividades mentais, principalmente na capacidade de se relacionar.

Uma atividade de lazer, de distração periódica, é certamente bem vinda e necessária, mas entendo que várias horas de prática diária devem nos chamar a atenção para o que, literalmente, está em jogo. Os jogos e a internet não são o problema, mas sim a forma sem limites como estes são utilizados e sua aceitação incondicional por parte de nossa sociedade.


[1] Agência da ONU especializada em tecnologia de comunicações (http://www.itu.int/en/pages/default.aspx)

[2] Estes dados levam em conta apenas os serviços de banda larga, considerando-se que o número possa ser muito maior se computadas as conexões por telefone, ainda existentes em países menos desenvolvidos.

[3] Empresa especializada em estatísticas de utilização da internet e meios virtuais (http://blog.nielsen.com/nielsenwire/)