Escutar o Sintoma: Escutar o Sujeito

 

Quando Lacan, em seu seminário de 1971, anunciou que falaria de um discurso que não seria o seu, tampouco do indivíduo, reforçava a ideia freudiana de que a concepção de sujeito* para a psicanálise requer considerar que este não é possuidor do discurso, mesmo que, determinado por ele. Isto quer dizer (entre outras coisas), que o Eu não é totalmente senhor de si, pois há acontecimentos que permanecem além da consciência mas aos quais o sujeito permanece respondendo, se adaptando, resistindo e que, algumas vezes, por não ser um sistema perfeito, acusam conflitos que se apresentam  como sintomas.

Sem adentrar em questões da psicopatologia, que exigiriam classificar e nomear tais sintomas, vamos pensá-los, de forma ampla, como aquilo que gera sofrimento. Mas, atenção leitor, pois a quebra de paradigma que Freud apresentou é que tal sintoma não é um acontecimento aleatório (embora possa contar com estes), mas sim um acontecimento que tem uma função e, vai além, pois afirma que esta função tem, em sua gênese, a “chave” para “quebrar o código”, a solução para diminuir o sofrimento.

Mas, como seria operar de forma contrária? Neste caso, Alfredo Jerusalinsky, ao falar de como a psicopatologia procura toda explicação em uma causalidade orgânica, ou em um déficit cognitivo, acaba por não questionar o sintoma, não investigar “o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar […]; é assim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta” (Jerusalinsky, 2011, p. 238).

Portanto, esta distinção não é puramente um exercício teórico, já que é através dela que a direção do tratamento em psicanálise se distingue do campo geral das psicoterapias, como Freud aponta em seu discurso de 1905: “A terapia analítica não deseja acrescentar ou introduzir algo novo, mas sim retirar, extrair, e para isso cuida da gênese dos sintomas doentios e do contexto psíquico da ideia patogênica, cuja remoção é seu objetivo” (Freud, 1905).

Para ilustrar esta afirmação, Freud lança mão de uma analogia. Nesta, o método do tratamento analítico consistiria em retirar camadas para atingir o núcleo do sintoma, como o escultor que retira fragmentos de rocha para revelar o que o bloco bruto estaria encobrindo, em oposto ao método que introduziria algo novo, como um pintor que marca com sua tinta uma tela – que acredita – estar em branco.

Para concluir, podemos perceber que há na ética psicanalítica um apreço pelo mais singular do discurso do sujeito (que não é mesmo que indivíduo), o que não permite que a posição do analista seja a daquele que objetiva determinar a direção do tratamento visando um modo “correto” de atuar no mundo, pois para isto precisaria compreender o sintoma como uma deficit a ser corrigido e não como uma produção que traz, nela mesma, pistas do que há de inconsciente por trás daquele sintoma; pistas que levariam ao saber sobre o sujeito, possibilitando que este passe a se relacionar de uma nova maneira com o mundo. Talvez mais singular, talvez menos, mas certamente, sua.

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PS: Esta distinção é essencial para que a direção do tratamento possibilite gerar os resultados positivos que a literatura tem atribuído à psicanálise. Aliás, há duas excelentes meta-análises que demonstram estes resultados, tanto a médio como curto prazo. Mas isto é assunto para outro texto.

*A definição de sujeito para a psicanálise, assim como sua distinção em relação ao individual, é um tema complexo que remonta às definições de discurso e linguagem. Mais sobre isto pode ser encontrado no Seminário XVIII de Lacan, página 16-17 da tradução brasileira da Zahar.

Referências Gerais:

Branco, D. R. (2014). Dissertação de mestrado: O Sintoma Em Psicanálise: Entre o Corpo e o Sentido. Universidade Estadual de Maringá: Maringá.

Freud, S. (1905). Psicoterapia. São Paulo: Companhia das Letras.

Jerusalinsky, A. (2011). Gostinhas e Comprimidos para Crianças sem História: Uma Psicopatologia Pós-Moderna para a Infância. In: A. Jerusalinsky, & S. (. Fendrik, O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea (pp. 231-242). São Paulo: Via Lettera.

Lacan, J. (1971). O Seminário Livro 18: De um Discurso que não fosse Semblante.. Rio de Janeiro: Zahar.

Ao Cantar na Escuridão…

“Ao cantar no escuro, o andarilho nega seu medo, mas nem por isso enxerga mais claro” Freud, 1926.

No espírito acelerado dos tempos atuais, nos quais a informação se tornou moeda acessível, pelo menos em partes, para todos, a mera possibilidade que o caminho da vida possa não ser totalmente banhado pelas luzes do conhecimento é rapidamente descartada como impossibilidade. Negada, nos discursos que permeiam a existência, até as últimas consequências. Mas, seria isto uma possibilidade real? Seria o saber passível de ser alcançado em sua completude, já que estamos banhados virtualmente por um mundo “High Tech”, que atravessa do espaço mais público ao mais íntimo?

Enquanto a ciência sabe que é a dúvida que gera o conhecimento, o cientificismo (sim, são diferentes) tem a certeza de poder explicar tudo; com a genética prometendo mapear e decodificar todos os traços tanto objetivos, quanto subjetivos, com as técnicas de autoajuda criando métodos a serem vendidos como solucionadores para todas as infelicidades da vida – seja ela individual, matrimonial ou corporativa – com a dogmática de religiões pós-modernas se esmerando em não deixar espaço para a dúvida. Resta somente aos historiadores, filósofos e psicanalistas apontarem o que destoa deste discurso que se apresenta tão sedutor ao sujeito.

Quando Freud escreveu a citação que deu início a este texto, em muitos aspectos o mundo era um lugar diferente. Desde então, a sociedade, a medicina e a ciência tiveram seu percurso,  no qual a ideia de evolução não deve ser entendida como uma linha constante, nem mesmo como uma tendência garantida, mas apenas como um desejo muito compreensível por parte de todos os envolvidos. Mas, um desejo dado como garantido a ponto de que a própria teoria da evolução darwiniana ser interpretada como demonstração desta tal tendência, mesmo que o autor em sua teoria da adaptação, nada tenha dito sobre um empuxo positivo à evoluir. Neste caso, embora a evolução seja uma questão de opinião, a mudança é, esta sim, inexorável e assustadora. Desta mesma forma, lacunas são preenchidas pelo senso comum para lidar com o medo do futuro, do incerto, daquilo que inevitavelmente é obscuro pela própria característica da existência.

O pensamento corrente pouco se alterou nesse longo espaço de tempo, tendo claramente criado soluções para grandes problemas de saúde, mas teve como efeito colateral (talvez necessário) o desenvolvimento de um discurso que vai de um determinismo extremo a uma tentativa de total holismo, mas que têm como ponto de coincidência a neurose por um saber que seja todo; pela total eliminação de qualquer impossibilidade. “Se você deseja, você consegue”, preferencialmente por si mesmo mas, se não for possível a ciência demonstrará qual a forma ou medicação/intervenção correta para tornar viável aquilo que cada um deseja. Uma imposição do sujeito ao contingente que, se levada a sério, possui ares de megalomania, como um delírio iluminista levado às últimas consequências!

Consequências estas que em partes seriam a construção de uma realidade frágil que procura se sustentar em pós-verdades, em figuras de identificação que enlaçam a plateia com discurso duvidoso, mas hábil em criar a desejada sensação de segurança – mesmo que falsa. Tal manobra demanda enorme esforço e investimento subjetivo para evitar o desconforto do não saber… Um salto de fé, mas sobre terreno suspeito!

Freud reconheceu em sua criação que, embora o movimento em direção ao saber seja necessário, há nele uma inerente miopia. Uma visão parcial, constituinte da própria condição humana e necessária para suportar a delicada ex-istência em meio às reais incertezas causadas por inevitabilidades da vida, como o tempo que consome o corpo, a natureza que volta e meia nos prega peças e as próprias ações do Outro, inesperadas e muitas vezes confusas a nosso olhar. Mas, nem por isto, esta miopia seria um acordo sem falhas em nosso processo civilizatório, pois ao ignorar a existência da falta,  tentando preencher todas as lacunas, o sujeito humano se empenha em um esforço fadado a entrar em conflito com a sua própria impossibilidade. Com a impossibilidade que não cessa de testemunhar que por mais luz que se jogue em um espaço, as sombras não deixam de existir, na verdade se fortalecem pela própria ação do ato de iluminar. Onde há luz, há sombra! Assim, ao ignorar este conflito, escancarado por este esboço do Real, o sujeito gera ainda mais sofrimento.

A saída, por mais simples que seja, não se constitui em tarefa fácil, apesar de possível. O mero ato de perceber este engano, de reconhecer sua existência, cria um novo movimento que permite percorrer o caminho do saber, mesmo que este caminho seja sempre parcialmente iluminado. Reconhecer a falta que nos habita pode ser a única forma de lançar alguma luz sobre a realidade de nosso percurso, pois reconhecer o medo do escuro não fará o andarilho enxergar melhor o caminho, mas certamente é uma aposta em saber de sua ignorância, para criar um novo modo de andar, condizente com sua realidade e pronto para resistir aos percalços de sua caminhada.

A Arte de Criar Pedras

 

“A Poesia é como fazer um caminho a partir de uma pedra, e a Análise é fazer belas pedras a partir de um caminho” (Jacques-Alain Miller).

Ao caminhar pela vida, há momentos em que o caminhante enguiça.

Depara-se com um caminho há muito conhecido, já muito trilhado por seus pés; mas que de repente, sem que perceba como isto aconteceu, exige um grande peso a cada passo.

É por isto que Miller fala nesta metafórica pedra como uma produção necessária ao processo de análise. Necessária ao trabalho que aposta em possibilitar ao sujeito voltar a caminhar, mesmo que por um novo percurso, agora adornado por suas pedras, criadas como totens que demarcam suas conquistas.

Mas, criar pedras não é algo fácil, ainda mais as metafóricas! Pois, exige a força para gestar perguntas, mesmo quando buscando respostas. Exige a perspicácia para permitir questionar-se a partir do velho e repetido caminho, questionar-se a partir dos tropeços de rota: O que queres?!

(Daniel R Branco)

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De vales a Picos – A Conquista de Guilherme e Juliana

Algumas experiências de nossa vida fazem uma mudança tão profunda, que quando pensamos nelas, sabemos que é uma divisora de águas. Elas podem ser um grande evento inesperado, uma mudança de condição física ou social, ou simplesmente um novo sentido adquirido em um processo de autoconhecimento. Se terão frutos positivos ou negativos, depende do sentido dado por cada um de nós a estas experiências.

O momento decisivo para o casal Guilherme e a Juliana veio há alguns anos atrás, de forma totalmente inesperada, quando a Juliana começou a apresentar sintomas de uma síndrome degenerativa do sistema nervoso, durante a gestação.

Assustador, não é mesmo? Mas, o que será que eles criaram a partir desta tempestade?

Há algumas semanas atrás, tive o privilégio de participar de uma experiência junto com alguns amigos, na qual o Guilherme, a Juliana e o montanhista profissional Máximo Kausch iriam testar uma cadeira adaptada para uma expedição que levaria a Juliana ao Acotango, montanha de mais de 6000 metros de altura, que fica na fronteira entre Bolívia e Chile.

 

Hey!! Mas, espere aí! Como viemos parar em uma montanha depois daquele assustador diagnóstico?!?!

Para entender isto precisamos contar a história deste singular casal, pois, um dos resultados daquele divisor de águas é um projeto chamado Montanha para Todos. Uma idealização do Guilherme e da Juliana para lidarem com a grande mudança que ocorreu em suas vidas. Por isto, eles nos concederam uma entrevista um pouco antes de partirem para a expedição de ataque ao cume do Acotango, para que a Juliana seja a primeira cadeirante a conquistar uma montanha de mais de 6000 metros.

Juliana e Guilherme

Guilherme e Juliana rumo ao Pico Araçatuba para testar a Julietti (Cadeira Adaptada para Montanha).

 

[Daniel R. Branco]: Podem contar um pouco da história de vocês? Há quanto tempo estão juntos, como começaram a praticar montanhismo?

[Montanha para Todos]: Nós estamos juntos há 13 anos e começamos acampando. Logo no primeiro ano de namoro fomos apresentados pelo meu irmão à escalada em rocha; nos apaixonamos e fomos estudar para aprender a escalar. Após uns dois anos escalando direto vimos que estávamos ficando muito solitários e fomos em busca de conhecer mais pessoas. Como a ideia foi fazer trilhas, conhecemos pessoas muito legais. No fim de semana seguinte fomos subir o pico dos Marins e adoramos a experiência…de lá pra cá, não paramos mais.

[Daniel R. Branco]: Vocês poderiam contar um pouco do adoecimento da Juliana e o processo de diagnóstico? Afinal, é uma síndrome bem rara. 

[MPT]: Foi algo bem rápido e inesperado. No segundo mês de gestação ela começou a sentir as pernas pesadas e os médicos achavam que era uma questão de circulação, porém em um intervalo de 2 meses ela já não tinha mais coordenação das pernas, mãos , braços e a fala ficou arrastada. Por isto, tivemos que começar a fazer uso de cadeira de rodas. Envolvemos mais de 30 médicos, sendo a grande maioria mais voltada para o lado acadêmico e de pesquisa pois estavam mais atualizados às novidades. Logo, enviamos um exame para os Estados unidos e começamos a ter uma forte suspeita de síndrome paraneoplásica, mas precisávamos fazer um pet CT para tentar concluir o diagnóstico, o que seria muito prejudicial para o Ben, então fizemos 3 ciclos de imunoglobulina humana para tentar controlar a piora e começamos uma busca por um hospital e médico que topasse antecipar o parto do Ben para podermos realizar o Pet CT. Conseguimos e antecipamos o parto para 7 meses, logo em seguida pudemos concluir o diagnóstico , degeneração cerebelar paraneoplásica.

[Daniel R. Branco]: Como foi para vocês o processo de e tratamento? E como foi que tomaram a decisão de não parar de fazer o que gostam?

[MPT]: Quando surgiu a suspeita do diagnóstico da Ju, vimos que estava caminhando para ser algo irreversível. Perguntei para Ju o que ela mais gostava de fazer e ela disse Viajar e subir montanha, então fiz uma promessa para ela que onde ela quisesse ir, eu a iria levar. Então, comecei a pensar em equipamentos que possibilitassem leva-la novamente para a montanha.

Inicialmente pensamos em criar uma bicicleta para fazer a carreta austral. Fiz o projeto, mas na metade do caminho surgiu a ideia de levar ela no aniversário para montanha, mas no momento só tínhamos a cadeira normal, do dia-a-dia. Foi muito difícil a subida com a cadeira normal, afinal ela não foi projetada para isto. Foi então que começamos a dar vida à Julietti (nome carinhoso que a Juliana deu para a cadeira projetada especialmente para montanha).

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[Daniel R. Branco]: O que vocês gostariam que as pessoas soubessem sobre o projeto Montanha para Todos?

[MPT]: Gostaríamos que todos soubessem da importância do voluntariado para conseguir manter o projeto ativo, não adianta nada distribuirmos cadeiras Juliettis se não tivermos quem ajudar nas atividades. Outro ponto forte é o pessoal participar e sentir a energia que tem cada atividade. Costumamos falar que é mais gratificante para quem ajuda do que pra quem vai sentado.

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[Daniel R. Branco]: Posso atestar que vi isto acontecer no teste da cadeira Guilherme, realmente todos tiveram uma experiência incrível!

[Daniel R. Branco]: O que vocês gostaria que as pessoas soubessem quando participam de uma trilha com uma pessoa com necessidades especiais?

[MPT]: Do bem que estão fazendo para a pessoa ali sentada, que muitas vezes acha que a vida se limita a hospital, casa e terapias ou, pior ainda, Às vezes acha que a vida acaba quando se tem limitações.

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[Daniel R. Branco]: O Brasil ainda não tem uma cultura de inclusão de PNE em todos os âmbitos, dito isto, há algo no comportamento das pessoas que incomode vocês em relação à Ju?

[MPT]: Uma coisa que incomoda bastante é que quase todo mundo vem perguntar para mim o que a Ju tem. As pessoas têm receio de conversar com uma pessoa com deficiência, acho que isso faz parte da inclusão e temos que quebrar estas barreiras.

[Daniel R. Branco]:Como vocês têm percebido a inclusão da Juliana e da Julietti nos grupos?

{MPT]: É algo muito legal!! Conhecemos as pessoas no dia e em poucos minutos já somos quase íntimos, todos querem ajudar, querem conversar, brincar… A Julietti une as pessoas. É uma verdadeira ferramenta que motiva o trabalho em equipe e exclui as diferenças.

Ah…e é uma fazedora de sorrisos!

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[Daniel R. Branco]:Em nossa cultura (Brasil), como vocês têm percebido a inclusão social de uma pessoa com necessidades especiais?

[MPT]: Ainda falta muito, mas o brasileiro é um povo carinhoso e amoroso. Não está difícil, mas o que falamos constantemente em palestras e eventos é que enquanto as pessoas com deficiência não saírem para a rua, enquanto ficarem escondidas apenas nas atividades de tratamentos, a inclusão não vai acontecer. Precisamos trabalhar a inclusão reversa, e isso só vai acontecer quando as pessoas especiais aparecerem.

Sabemos que acessibilidade é algo que aqui não existe, mas não adianta esperarmos tudo ficar acessível, pois não ficará. Por isso tentamos estimular ao máximo empresas e jovens estudantes para que pensem em soluções, serviços e equipamentos que possibilitem que um local não acessível se torne acessível a grandes intervenções, assim também aumentaremos a inclusão.

[Daniel R. Branco]:E que lugar melhor do que a montanha para demonstrar isto, não é mesmo? Quais os próximos planos de vocês?

[MPT]: Terça 10/07/2018 estamos embarcando para Bolívia para dia 15/07 iniciar a viagem expedição Montanha para todos , dando tudo certo a Ju pode se tornar a primeira montanhista cadeirante do mundo a subir uma montanha com + de 6000 metros de altitude.

Retornando da Bolívia começaremos a morar em nossa caminhonete adaptada, onde pretendemos viajar, durante 5 anos, pelo Brasil e pelo mundo.

Já com a ONG Instituto Montanha para Todos, esperamos em breve contar com vários voluntários para nos ajudar na questão administrativa e ter algumas empresas patrocinadoras para podermos desenvolver novos equipamentos para promover a inclusão e acessibilidade em outros esportes outdoor, assim como distribuir pelo Brasil estes equipamentos para que qualquer pessoa possa utilizar, sem custo.

As cadeiras Juliettis hoje, já são 23 distribuídas pelo Brasil, e queremos até o fim do ano que vem ter pelo menos uma em cada estado.

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No dia 25/07/2018 a expedição alcançou 5800m em direção ao Cume do Acotango.

[Daniel R. Branco]: Vocês gostariam de deixar alguma mensagem para as pessoas que lerem sua entrevista?

[MPT]: A vida pode ser muito boa mesma com limitações. Basta olhar para o que temos e não para o que não temos.

 

Conheça o projeto Montanha para Todos, pode acessar o site http://montanhaparatodos.com.br/ ou os perfis em mídias sociais Fecebook: https://www.facebook.com/montanhaparatodos/ e Instagram: @montanhaparatodos

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As ansiedades / É normal sentir ansiedade?

Você já se sentiu ansioso? Angustiado*? Acredite, isso pode ser um bom sinal: significa que você está vivo!images

É claro que existem níveis de ansiedade que podem não ser saudáveis – e é disso que falarei agora, tomando como base a Psicanálise, e várias indicações científicas atuais sobre o tema. Como vou simplificar alguns conceitos, no final deixarei indicações de leitura para quem for da área e/ou quiser saber mais sobre o assunto.

Sim, parece contraditório dizer que alguém está vivo se está se sentindo ansioso, mas na verdade, a ansiedade está a serviço da autoconservação. Basicamente, a ansiedade, é uma resposta normal, que o Ego (parte da nossa estrutura psíquica) dá a uma situação de perigo, que pode ser interna ou externa.

Portanto, uma ameaça externa é algo fácil de visualizar e entender, mas e no caso de uma ameaça interna, como isto seria? Para responder isto, precisamos pensar em algumas diferenças que nós, humanos, temos dos outros animais que conhecemos.

 

A capacidade Humana de perceber perigos reais e criar perigos simbólicos

O perigo pode ser algo muito real e externo a você, como um predador, ou então o resultado da atividade simbólica (exclusividade do animal humano) que, embora não seja um perigo real que está fisicamente na sua frente, é a possibilidade de que este perigo aconteça e todas as ligações simbólicas que o sujeito irá fazer singularmente de acordo com sua história, com todas as suas experiências de vida, conscientes ou inconscientes.

Se para os outros animais a resposta é mais direta: Presença real do perigo à medo (respostas fisiológicas) à ação (luta ou fuga). No animal humano, além da possibilidade de responder a uma ameaça fisicamente presente e comunicar sobre ela, a linguagem torna nosso processo de resposta muito mais complexo. Mas, aqui você deve estar pensando que sim, você sabe que outros animais também se comunicam. Isto é verdade, porém, a linguagem que conseguem desenvolver é apenas em relação direta ao que estão comunicando, ou seja, você pode ver um macaco sinalizando a presença de um leão, real, presente naquele momento, mas não desenvolvem atividades simbólicas abstratas. O que quer dizer que, certamente, não o verá sentado em sua posição de vigia do bando, falando sobre sua preocupação de que ele não seja um bom macaco e possa mostrar seu valor para os outros do bando caso venha a aparecer um leão, nem em conflito com seu papel social como vigia. Macaco é macaco. Leão é leão… Corra!

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O animal humano é atravessado pela fala (linguagem) de forma mais complexa, possibilitando que a palavra “leão”, possa ser uma infinidade de outras coisas. Desde um perigo real que exige trabalho físico, até um conjunto de símbolos coletivos que podem indicar força, virilidade em algumas culturas, a bandeira da casa dos Lanisters em GOT, ou então um indicador de algo vinculado a uma experiência pessoal, singular a cada um, como por exemplo um personagem de um desenho assistido durante a infância que traz diversas lembranças (Thundercats, Simba?!).

Ou seja, nossa linguagem nos permite criar uma infinidade de referentes diretos e indiretos a uma palavra, criar conceitos e abstrações dos mesmos, mas também nos possibilita planejar o futuro e lembrar do passado e com isto, claro, nos possibilita também que nos preocupemos com eles e com todas as possibilidades que desejamos ou tememos que aconteçam.

Podemos usar como exemplo de perigo simbólico, mais comum para nós que não vivemos entre leões, uma prova de faculdade. A possibilidade de você tirar uma nota baixa e reprovar é, de certa forma, um perigo, uma ameaça àquilo que você acredita que esperam de você, além de poder trazer prejuízos práticos no futuro, como uma reprovação. Portanto, pode ser motivo de ansiedade, embora a ameaça não seja real e esteja ela na sua frente, a prova é apenas uma parte de tudo aquilo que você considera ameaçador, neste caso possibilidades futuras e representações simbólicas; portanto, internos e simbólico.

Em casos onde há sintomas relacionados à ansiedade, ou esta mesma se apresenta de forma constante e desvinculada de contexto, existe ainda a possibilidade de ser um resultado de uma ameaça ainda mais “interna”, pois seria uma reação do Ego (a instância psíquica responsável pela sua noção de Eu, pelo menos da parte consciente) a um desejo ou pensamento que gera conflito. Um pensamento, um desejo que entra em conflito com sua visão de eu, mesmo inconsciente, gera ansiedade. Por exemplo, o desejo de matar um chefe muito chato, pode ser reprimido caso isto entre em conflito com a visão de boa pessoa que o desejante tem de si, gerando angústia. Claro, existem pensamentos muito mais conflitantes e que precisam ficar inconscientes para não gerar ainda mais ansiedade, mas falaremos mais sobre casos patológicos à frente.

Já um perigo físico, real, é mais fácil de imaginar por exemplo se pensarmos novamente em um leão à espreita. Não preciso dizer o tipo de prejuízo que um ataque de leão traria a você, certo?

Os dois tipos de perigo exigem que você tome uma atitude para, de alguma forma, encontrar uma solução e eliminar a fonte de ansiedade. Desviar o olhar e fingir que o problema não existe, como avestruz que “esconde” a cabeça no buraco, só traria problemas. Principalmente no caso de um leão à espreita.

De uma maneira ou de outra, os dois tipos de situação podem gerar uma resposta que seria um aumento significativo de atividade psíquica. Somado a isto, nosso Ego trabalha para manter um nível de energia psíquica constante, e quando alguma situação eleva demais esse nível, temos… ansiedade. O que nos leva ao próximo ponto, que é…

 

Ansiedade descontrolada

Em alguns dos exemplos acima, a ansiedade serve como um incentivo, um desconforto que incentiva você a agir. No caso da prova, uma boa atitude aproveitar a energia que te coloca em movimento para se preparar para prova, mas também compreender que é totalmente normal e esperado estar ansioso, além de reconhecer também que outras pessoas que farão a prova certamente também estarão ansiosas por mais que se esforcem para mostrar o contrário – você não está sozinho – mantendo assim a ansiedade em um nível que te motive a agir, mas não te atrapalhe na ação em si. No caso do leão, a solução óbvia seria fugir para um lugar seguro.

Há casos em que a ansiedade não tem uma motivação clara, ou é totalmente desproporcional em relação ao motivo causador (como por exemplo ter uma crise de pânico por causa de uma prova da faculdade).

A ansiedade patológica, não surge de uma maneira conveniente, ou adaptativa. Ela aparece de maneira inadequada, e gera a sensação para a pessoa que a sente de não ter motivação alguma. O que leva muitas pessoas a procurarem auxílio de medicamentos por entenderem que, se você não consegue apontar o motivo diretamente (como o leão, ou a prova), então o motivo não existe. Mas, é aqui que precisamos lembrar que como nossa linguagem funciona de forma complexa, um leão não necessariamente, é apenas um leão. Portanto, uma crise desproporcional de ansiedade pode ter gatilhos disparados inconscientes que aparentam não existir, mas aparecem de forma clara após um tratamento psicoterápico bem direcionado.

Nesses casos, o mais indicado seria buscar auxílio profissional de um psicólogo para descobrir causas “escondidas” ou trabalhar para retomar um nível “normal” de ansiedade. Não existe uma fórmula mágica para estes casos, o uso de medicamentos traz diversos efeitos indesejados, provavelmente piores do que a ansiedade em si, e a psicoterapia é um processo contínuo e progressivo (como “matar um leão por dia”) mas certamente recompensador no final, quando o leão simbólico não mais se apresenta como uma ameaça.

Nesta época do ano é muito comum nos sentirmos ansiosos, pensando nos desafios que o próximo ano poderá trazer. Espero que tenha ficado claro que é normal, até mesmo necessário, sentir ansiedade em algum grau – e que um profissional pode ajudar em caso de necessidade.

Referências:

  • Freud, S. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901).
  • Jerusalinsky, A. e Fendrik, S. O Livro negro da psicopatologia contemporânea (2011).
  • Freud, S. Novas conferências introdutórias à Psicanálise (1933).
*Ansiedade e angústia são duas palavras comumente utilizadas para o mesmo fim, definidas pelo dicionário por um grande mal-estar físico e psíquico, estando também ligadas a um sentimento de ameaça impreciso e indeterminado. Freud utilizava no alemão o temo Angst, que pode ser traduzido tanto por angústia, quanto medo, porém utilizaremos a palavra mais comum: Ansiedade.

A Normopatia Contemporânea

Vivemos uma época em que a patologização do comportamento chegou a um discurso extremo que se assemelha a uma espécie de “normopatia”, ou seja, uma extrema necessidade de definir a normalidade, o que é ou deixa de ser aceito pelos padrões funcionais da sociedade; criando como consequência o seu negativo, ou seja, a necessidade de classificar tudo que escapa desta norma definida pela ciência ou outras instituições como, obviamente, patológico… Doença a ser tratada. Tem sido assim com estados de humor, aparecendo aí as depressões e bipolaridades sendo diagnosticadas a qualquer sinal de desvio do “normal”*, e está sendo assim agora, com uma regulamentação que vem da esfera jurídica sobre um possível tratamento da homossexualidade.

Ora, se pensarmos em um ser no qual hipoteticamente possamos separar por completo o corpo fisiológico do “mental”, assim como tentou Descartes e ainda atentam tantas linhas de pensamento; talvez fosse realmente possível definir o que deveria ser um comportamento evolutivo, geneticamente definido e garantido por nossos instintos parece ser possível com nossos paralelos do restante do reino animal.

Porém, não podemos esquecer que, embora sejamos sim pertencentes ao reinos animal, somos um animal atravessado pela linguagem, fazendo com que nosso corpo instintivo (ou pulsional em algumas traduções de Freud, lá em 1915) não tenha um objeto determinado, estanque, quando falamos em relação à sexualidade e também em relação à outras vias de satisfação.

Isto faz com que sejamos, em nossa formação enquanto indivíduos, inicialmente abertos a todas as possibilidades de trilhamentos para esta satisfação instintiva, ou como definiu Freud, o ser humano em sua constituição é Polimorfo. Portanto, mesmo que venha a definir sua satisfação instintiva (ou pulsional) no formato heterossexual, existe em um segundo plano, mais ou menos reprimido por cada um, um resquício da possibilidade de satisfação homossexual. É aí que aparecem os moralizadores com sua irresistível necessidade de caçar ferrenhamente no outro, aquilo que o habita, mesmo que debaixo de muitas camadas.

Concluindo, se em uma ser no qual a satisfação instintiva é definida em seu amadurecimento, mas é em sua cerne polimorfa, mantando as antigas vias de satisfação como possíveis mesmo que reprimidas, ou direcionadas para pequenas fontes de prazer similares (sublimadas), então se falarmos em uma possibilidade do profissional da saúde aceitar a homossexualidade como passível de cura, ele precisa necessariamente aceitar também a heterossexualidade para o mesmo fim. Se, neste contexto, existir uma cura homossexual, pode-se pensar em uma cura heterossexual.

A Psicanálise entende que o sujeito não tem uma forma única e correta de funcionamento a ser definida, e imposta, pelo tratamento. Pelo contrário, entende que o tratamento em si é possibilitar que cada um possa lidar com sua forma própria de lidar com seus desejos. E sim, ela vai ter seus furos, dificuldades e sofrimentos em qualquer uma das possibilidades.

Quem sabe, ao invés de tentarmos desesperadamente “normalizar” o mundo, possamos aceitar cada vez mais as diferenças e entender que elas podem sim, gerar saídas muito criativas para esta arte tão complexa que é o viver.

*O que não implica na inexistência destes quadros, mas que o seus diagnóstico passou por um “afrouxamento” a ponto de qualquer desvio daquilo considerado como normal ser passível de tratamento baseado em medicamentos. Em geral a depressão, a bipolaridade e os quadros infantis relacionados à aprendizagem, passaram a ser medicados não apenas em casos agudos, na medida que todo desvio passou a ser considerado agudo…

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“Ah! Se fosse possível esquecer!”

A frase escolhida para o título deste artigo poderia ser um exemplo das queixas que rotineiramente são escutadas na clínica psicanalítica. Mas, não é esta sua origem: foi retirada de um relato disponível na internet, escrito por alguém que deseja esquecer recordações dolorosas. Segundo quem a escreveu, para esquecer deve-se aceitar os fatos, perdoar, até que seja possível lembrar-se com menor frequência e sem emoções, algo que só o tempo e um tipo de “entendimento desapaixonado” poderiam proporcionar. Supondo que a partir disto seria possível olhar para a lembrança como se olha para uma imagem externa e indiferente, sem emoção.

Este desejo de esquecimento não é incomum, pelo contrário, ele passa pelo imaginário de todos aqueles que um dia já vivenciaram algo doloroso. É um desejo natural: se algo nos faz sofrer, que seja então “engavetado” em um canto inacessível de nosso mundo psíquico, esquecido. Que lá fique e não mais incomode!

Basta, porém, um pouco de reflexão para que a seguinte pergunta nos ocorra: É possível que este conteúdo esquecido deixe de existir e produzir efeitos sobre o indivíduo? Antes de respondê-la, precisamos pensar um pouco mais sobre o esquecimento, o que acontece com os conteúdos de nossa mente que ameaçam causar sofrimento.

Embora seja comum pensar no esquecimento como algo de caráter passivo, que acontece com o passar do tempo e sem grande participação do indivíduo, a etiologia da palavra esquecer demonstra que é exatamente o contrário, tornando clara sua conotação de atividade. Proveniente de ex-cadere (cair para fora), esquecer está sempre relacionado a ex-pulsar, ex-ilar ou ex-teriorizar um conteúdo. Denotando uma atividade psíquica, que como outra qualquer, requer esforço e investimento por parte do sujeito.

Este esforço para exercer esta atividade se dá devido ao desprazer – sofrimento – gerado por algum conteúdo psíquico que precisa ser retirado do alcance da consciência, exilado em uma porção do aparelho psíquico que Freud denominou inconsciente. Isto não acontece apenas com recordações; pensamentos, imagens e desejos ameaçadores são também repelidos e afastados da consciência, em uma tentativa de evitar que produzam grande desprazer. Para isto nosso aparelho psíquico faz uso de um processo chamado recalcamento – ou repressão – que garante que alguns conteúdos carregados de afeto mantenham-se inconscientes. Inconscientes sim, porém, permaneceriam indiferentes?

Segundo a Psicanálise as lembranças recalcadas, “esquecidas”, não estão simplesmente ausentes, nem tampouco são indiferentes pois, do seu lugar de não-dito, exercem seu poder, gerando também sofrimento ao indivíduo. Vale lembrar também que o total recalcamento de uma memória só é provável em situações realmente traumáticas, exigindo grande trabalho mental para que seja mantida inconsciente. Em geral, as lembranças dolorosas permanecem em um estado latente, mantendo inconscientes os fragmentos mais carregados de afeto; como, por exemplo, a carga sentimental vivenciada no momento ou uma parte específico do que foi dito.

Portanto, a ação sugerida pelo autor da frase de nosso título – Ah, se fosse possível esquecer – que sugere tornar um conteúdo psíquico “neutro” para que seja rememorado sem emoções, seria uma tentativa de trabalho para que a carga afetiva vinculada a uma recordação possa ser “escondida” em outro lugar, distante da consciência. Porém, é exatamente este ilegítimo afastamento que proporciona que tal conteúdo permaneça imutável no inconsciente, longe do conhecimento e da atuação consciente do sujeito, agindo sobre este de forma indireta, possibilitando que os mais variados sintomas se manifestem inicialmente sem ter relação com o conteúdo original, mas que no contexto de uma análise se mostram muitas vezes vinculados àquelas lembranças “esquecidas” .

O trabalho realizado em um processo de análise compreende exatamente possibilitar que estes conteúdos sejam assimilados pelo sujeito, admitidos em sua história, permitindo que o paciente aproprie-se daquilo que fazia parte de si, mas que o recalque defensivamente mantinha à distância, em uma tentativa limitada para evitar o sofrimento. Este trabalho só é possível através da paulatina desconstrução destes movimentos defensivos de recusa e repressão. Não atuando para modificar o conteúdo que estava reprimido, mas sim o sujeito, que passa a ser agente ativo em sua história. Esquecendo, mas não no sentido de extrair para tornar uma imagem sem sentimentos, e sim de tomar posse daquilo que sempre foi seu com toda a carga de sentimentos que merece, mas para a qual o indivíduo agora está pronto, silenciando seus fantasmas.

Para saber mais:
Freud, S. Recordar, Repetir e Elaborar (1914).
Freud, S. O Recalque (1915).
Mezan, R. A Sombra de Don Juan (1993).

A Formação do Analista

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Falar sobre a formação do analista é esbarrar, inevitavelmente, em algumas questões fundamentais para que se possa pensar em como deveria ser instituída a formação daquele que deseja ter como profissão a psicanálise, ou seja, deseja ser um analista. Esta discussão se faz necessária não apenas por um simples exercício teórico, pois há uma questão prática, legal, envolvida a partir do momento que se tenta instituir a prática como profissão regulamentada pelo Estado. Em 2010 um projeto de lei tramitava no congresso com o intuito de incluir a profissão de analista, que neste caso estaria incluída em um grande “pacote misto” de terapias que seriam regulamentadas por uma federação nacional das terapias (FENATE), neste “pacote” estariam as atividades de acupuntura, homeopatia, terapia floral, fitoterapia, psicanálise, psicoterapia, tai-chi-chuan, doin, auriculoterapia, entre outras (LIMA, 2009).

Portanto, é imprescindível uma discussão acerca do que deve contemplar a formação de um analista, pois ao abster-se da discussão, corre-se o risco de que sejam impostos métodos de avaliação, ou mesmo de formação que nada têm da essência da psicanálise e que não contemplam suas singularidades.  Neste sentido, o que poderia ser uma formação para que alguém seja permitido dizer-se analista, e quem poderia determinar isto, o estado, alguma instituição ou o próprio sujeito?

Respeitando o fato de ser outro contexto histórico, é possível recorrer a Freud, que trata  deste assunto em seu artigo A Questão da Análise Leiga de 1926. Texto no qual se pode observar a opinião de Freud em relação a fazer uma correlação entre a capacidade de ser analista e uma formação universitária específica como Medicina, e também Psicologia se fosse nos dias de hoje, pois à época de Freud esta ainda não havia sido instituída como profissão. Neste texto Freud demonstra a opinião de que o saber com o qual trabalha o analista estaria além da formação acadêmica, além daquilo que se poderia apreender exclusivamente em uma universidade.

Tendo isto em vista, pode-se pensar que, por mais que uma graduação, ou pós-graduação possam ensinar (usando aqui um verbo diferente de transmitir) sobre a teoria psicanalítica, os funcionamentos meta-psicológicos e mesmo sobre a técnica criada pro Freud, não são suficientes para formar um analista. Este raciocínio pode ser estendido para a própria direção do tratamento, pois as diferentes formações na área de saúde, como psicologia ou medicina, têm também as suas especificidades, suas formas de entender fenômenos como o sintoma psíquico, o sintoma físico e mesmo a relação corporal/mental, que podem estar mais próximas de um modelo técnico que visa um ideal de funcionamento psíquico/comportamental  que demonstram  pouca relação com a direção de uma análise ou mesmo com o conceito de sintoma dentro das formulações de Freudo. Para diferentes áreas da saúde, mesmo um conceito epistemológico fundamental como o corpo, principalmente quando se trata de um visão mais fisiologista em relação a este,  terão pouca proximidade com o corpo pulsional da psicanálise, um corpo permeado pelos desejos do inconsciente, assim como pela estrutura da fala. Ou seja, tais formações acadêmicas não garantem que aquilo que estes profissionais fazem seja  que se espera de um analista.

É neste sentido que talvez seja possível questionar se a prática do psicanalista pode ser passível de regulamentação. Pois, se este for o caso, qual seria o critério? A formação acadêmica, um exame técnico após a finalização do curso que avaliaria os conhecimentos teóricos do candidato ou as normas das próprias instituições de Psicanálise? E se a melhor resposta fosse a última opção, haveria outro problema, pois são várias instituições com suas próprias regras, portanto, de qual delas seira a prioridade da IPA, das escolas francesas, inglesas, ou norte-americanas ? Ou então, cada escola teria seu critério e forneceria uma “chancela” para o profissional?

No outro oposto da equação teríamos a possibilidade de nenhuma regulamentação. Neste caso aquele que queira trabalhar com esta disciplina poderia mergulhar nas profundas águas do próprio inconsciente, estudar a teoria e fazer uma supervisão ou análise de controle, conforme as tendência da escola da qual se aproximar. Mas, neste caso, quem garantiria os profissionais que o atenderiam nesta sua construção profissional? Ou mesmo, o que garantiria que qualquer um não poderia auto-intitular analista sem ter percorrido o caminho do tripé da formação? As próprias regras do “mercado”?

Neste ponto, pode-se perceber que algumas destas perguntas já contém suas próprias respostas, pelo menos no que diz respeito à forma que poderia se esperar de uma formação, e talvez esta mesma forma tenha alguma garantia de que este processo direciona o candidato a ter algo de analista em algum ponto, ou à desistir da empreitada. Talvez, isto seja um pequeno delírio pessoal, mas parece que aquilo que é conhecido como tripé  – que consistiria no estudo da teoria, na análise pessoal (experiência subjetiva com o inconsciente) e na supervisão dos casos atendidos pelo candidato – possa acrescentar alguma esperança ao processo. Pois, espera-se que em algum momento o desejo de tornar-se analista seja conteúdo de trabalho de sua própria análise, assim como o estudo poderia levantar questões sobre a possibilidade de atuar com aqueles conceitos, e este trabalho que começa primeiramente com o esforço para compreendê-los. Acrescenta-se a isto a experiência de atender a queixa de outro e conseguir utilizar tanto a experiência pessoal – do analista – com a análise, quanto o estudo teórico para atuar. Parafraseando um dos excelentes personagens de Goethe: “É em vão que se vagueia de ciência em ciência: cada um aprende somente aquilo que pode aprender” (Mefistófeles – em Fausto).

Estas dificuldades inerentes da própria prática do psicanalista já podem ser uma espécie de avaliação que geraria uma “linha de corte” natural. Acrescentando que talvez o próprio “mercado” possa fazer também esta função, tendo em vista que um mau direcionamento não seria de grande ajuda para manter-se como profissional[1]. Mas, esta sem dúvida não é uma equação perfeita, assim como também não são as propostas de regulamentação vigentes. Corre-se aqui o mesmo risco que acreditavam correr os antigos navegadores gregos: Quando navegavam muito próximos a uma das bordas do mundo eram ameaçados pelo monstro Cila, mas se tentassem se afastar demais deste, corriam o risco de aproximar da outra extremidade e cair nas garras de outro monstro, Caríbdis. Portanto, ao se navegar entre Cila e Caríbdis, é aconselhável não recorrer aos extremos.

Assim, na questão da formação do analista, o tripé acena como esperança, tendo em vista que é em essência comum às diferentes escolas de psicanálise, e  mantém em sua base a experiência com o próprio inconsciente, pois é esta experiência que pode não ser garantia para que se faça um analista, mas é sem dúvida, pré-requisito.

Não há garantias, só a do desejo…

Referência consultada:

  •  LIMA,A. Projeto de lei 64/2009.

[1] Isto não levando em conta a possibilidade de um Darwinismo social às avessas como mostrado no divertido filme Idiotopia; uma comédia de divertimento fácil, mas que tem uma proposta de fundo muito interessante, pois o autor extrapola o raciocínio de que em uma sociedade onde os mais bem sucedidos socialmente não são os intelectualmente mais capazes a “seleção social” levaria a um futuro no qual o mundo seria dominado por aqueles que conseguissem entreter as massas e enriquecer com isto, levando a uma seleção subvertida que resultaria em uma sociedade bem pouco capacitada para resolver até os problemas mais simples do cotidiano.

Automatismos Modernos, O Estranho e os Zumbis:

Cambaleantes, famintos por carne humana e sem qualquer resquício de humanidade ou memória de suas antigas vidas. São estas as características deste personagem imaginário que recentemente passou a protagonizar os enredos a terem sucesso de público na literatura, cinema, jogos eletrônicos e televisão. Para aqueles que têm acompanhado as produções atuais destas mídias, fica fácil perceber a estranha presença dos zumbis.

A influência parece ser tanta que, mesmo na literatura medieval, onde seria difícil imaginar um zumbi, deu-se um jeito de inseri-lo afim, é claro, de satisfazer a maior fatia possível do mercado de tendências. Como nos romances épicos de George R. R. Martin – A Game of Thrones – nos quais os mortos retornam para caçar os vivos durante a noite. Ainda que esta inserção pareça forçada, o autor cede à exigência de que, se a meta é o sucesso de vendas, os mortos-vivos têm que estar presentes na trama.

Seriam estas criaturas resultado deste começo de século? Aqui faz-se necessário um breve levantamento histórico.

A presença dos zumbis ganhou força em filmes de horror dos anos 80, porém já em 1839 há um interessante conto de Edgar Allan Poe (The Fall of the House of Usher), considerado o pai dos gêneros do suspense e horror, que retrata uma situação muito similar, levantando a possibilidade de que os zumbis já “existem” há algum tempo.

Esta criatura que ressurge do mundo dos mortos para alimentar-se de carne humana está presente na mitologia de variados locais como Europa, Ásia e África. Sua raiz histórica pode remontar à narrativas de mais de quatro mil anos, como na epopeia de Gilgamesh, na qual a deusa Ishtar ameaça abrir os portões do submundo para que os mortos venham alimentar-se da carne dos vivos (PLATTS, 2013). Porém, há algum consenso de que a invasão midiática dos zumbis se deu pelo intermédio das expedições militares norte-americanas ao Haiti, iniciada em 1915, onde a apropriação da figura folclórica do povo haitianos seria de um parente, já morto, que andaria descerebrado pelas ruas (Ibid.)

Sempre que uma produção humana ganha uma forte adesão e perdura por gerações, como têm se mostrado os zumbis e suas variantes, é possível interrogar o que desperta tamanho fascínio. A exemplo do psicanalista Bruno Battelheim com as histórias infantis e de Freud com obras da literatura, um possível caminho é interrogar o que na vida psíquica dos indivíduos estas produções podem estar integrando. Sob esta perspectiva, algumas questões podem ser levantadas.

Uma forma de pensar este fenômeno utilizando o método psicanalítico é interpretar aquilo que expõe além da impressão inicial. Ou seja, dar um “passo” acima do discurso diretamente exposto. Embora vários fatores possam emergir deste tipo de análise, para este ensaio serão levantadas duas questões que parecem destacar-se. A primeira diz respeito a algo que se move de forma automática, impulsionado pela fome, sem pensar: um autômato. Acrescenta-se a isto a representação de um corpo humano, de carne e ossos, mas que já não é vivo internamente, não tem memória, não tem julgamento nem cultura e, portanto, não pode mais ser considerado humano.

Freud, em 1919, escreve O Estranho, trabalho no qual faz uma analogia entre a literatura e personagens e situações capazes de fascinar por sua estranheza, por causar inquietação. Como isto fascina tanto no sentido do estranho, aquilo que nos é Unheimlich (estranho, o título do texto), mas também atrai por manifestar algo que obscuramente move-se no interior psíquico de todos, algo de familiar, algo de Heimlich (a mesma raiz da palavra estranho em alemão serve para familiar). Neste texto, o pai da Psicanálise analisa também, dentre outros personagens, a figura do autômato que assim como os zumbis causariam inquietação também pela dúvida em relação à sua humanidade, uma cópia teoricamente vazia.

Pensando sobre este aspecto, o zumbi parece pertencer à categoria de autômato, assim como também daquele que fascina por trazer aquilo que estaria nas sombras do ser, mostrando algo de seus desejos encobertos. E quais desejos poderiam ser estes?

É interessante pensar que é em algumas produções culturais que desejos proibidos poderiam ser atuados de formas simbolizadas ou, no mínimo, seguras para o indivíduo. Pensando no zumbi como um ser humano, mas que por algum motivo o deixa de ser, o grande mote destas produções está em matar um semelhante – que se assemelha a um humano mas, neste caso, não é – sem as consequências que isto teria: poder matar sem que seja um ato de assassinar. No caso das histórias de zumbis, este desejo poderia ter sua catarse escapando de forma segura às punições internas do superego. Mata-se o simulacro, realiza simbólica e parcialmente um desejo e escapa do risco de qualquer punição.

A própria noção de autômato, pensado como aquele que age sem uma intermediação do pensamento, talvez tenha alguma relação com o indivíduo, pois distante de seu próprio agir, alienado de si, anestesiado de seu próprio mundo interno e que deseja apenas atuar no mundo em busca da satisfação. O filósofo alemão Theodor Adorno usa o termo “máscara mortuária” para definir o sujeito alienado de si, que perambula pela vida, de forma análoga ao que presenciou em campos de concentração nazistas quando o indivíduo se comportava como um morto-vivo até se agarrar à cerca elétrica para morrer; desta forma eles sabiam de antemão que o indivíduo iria para a cerca. É fácil uma analogia ao sujeito alienado de si, que não vai diretamente para a cerca, mas perambula pela vida como um morto-vivo, um autômato.

Portanto além da catarse de desejos e do estranhamento causado por algo de familiar oculto nestas fantasias, o apocalipse zumbi venha denunciar algo sobre o modo de vida da atualidade. E nada mais psicanalítico do que pensar que é a escuta diferenciada do analista que pode oferecer uma saída a esta alienação, ao desejo não dito que compulsivamente se repete, para que talvez se possa agir menos de forma automática e mais de forma integrada.

* Artigo publicado originalmente no jornal Psicologia em Foco (Julho de 2012), disponível em: http://www.grupopsicologiaemfoco.com.br/media/uploads/jornais/Psicologia_em_Foco_-_FINAL.pdf

Para saber mais:

  • Adorno, T. A Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar: 1944/1985.
  • Freud, S. O Estranho. São Paulo, Companhia das Letras: 1919/2011.
  • Freud, S. Totem e Tabu. Rio de Janeiro, Imago: 1913/2006.
  • LUCKHURST, R. Zombies: A Cultural History. Londres: Reaktion Books Ltd, 2015.
  • PLATTS, T. K. Locating Zombies in the Sociology of Popular Culture. Sociology Compass, v. 7, n. 4, p. 47–560, 2013.
  • POE, E. A. The Cpllected Works of Edgar Allan Poe. Londres: Wordsworth Library Collection, 2009.