Escutar o Sintoma: Escutar o Sujeito

 

Quando Lacan, em seu seminário de 1971, anunciou que falaria de um discurso que não seria o seu, tampouco do indivíduo, reforçava a ideia freudiana de que a concepção de sujeito* para a psicanálise requer considerar que este não é possuidor do discurso, mesmo que, determinado por ele. Isto quer dizer (entre outras coisas), que o Eu não é totalmente senhor de si, pois há acontecimentos que permanecem além da consciência mas aos quais o sujeito permanece respondendo, se adaptando, resistindo e que, algumas vezes, por não ser um sistema perfeito, acusam conflitos que se apresentam  como sintomas.

Sem adentrar em questões da psicopatologia, que exigiriam classificar e nomear tais sintomas, vamos pensá-los, de forma ampla, como aquilo que gera sofrimento. Mas, atenção leitor, pois a quebra de paradigma que Freud apresentou é que tal sintoma não é um acontecimento aleatório (embora possa contar com estes), mas sim um acontecimento que tem uma função e, vai além, pois afirma que esta função tem, em sua gênese, a “chave” para “quebrar o código”, a solução para diminuir o sofrimento.

Mas, como seria operar de forma contrária? Neste caso, Alfredo Jerusalinsky, ao falar de como a psicopatologia procura toda explicação em uma causalidade orgânica, ou em um déficit cognitivo, acaba por não questionar o sintoma, não investigar “o que quer dizer este ponto, esta palavra ou este gesto fora do lugar […]; é assim que os problemas deixam de ser problemas para serem transtorno. É uma transformação epistemológica importante, e não uma mera transformação terminológica. Um problema é algo para ser decifrado, interpretado, resolvido; um transtorno é algo a ser eliminado, suprimido porque molesta” (Jerusalinsky, 2011, p. 238).

Portanto, esta distinção não é puramente um exercício teórico, já que é através dela que a direção do tratamento em psicanálise se distingue do campo geral das psicoterapias, como Freud aponta em seu discurso de 1905: “A terapia analítica não deseja acrescentar ou introduzir algo novo, mas sim retirar, extrair, e para isso cuida da gênese dos sintomas doentios e do contexto psíquico da ideia patogênica, cuja remoção é seu objetivo” (Freud, 1905).

Para ilustrar esta afirmação, Freud lança mão de uma analogia. Nesta, o método do tratamento analítico consistiria em retirar camadas para atingir o núcleo do sintoma, como o escultor que retira fragmentos de rocha para revelar o que o bloco bruto estaria encobrindo, em oposto ao método que introduziria algo novo, como um pintor que marca com sua tinta uma tela – que acredita – estar em branco.

Para concluir, podemos perceber que há na ética psicanalítica um apreço pelo mais singular do discurso do sujeito (que não é mesmo que indivíduo), o que não permite que a posição do analista seja a daquele que objetiva determinar a direção do tratamento visando um modo “correto” de atuar no mundo, pois para isto precisaria compreender o sintoma como uma deficit a ser corrigido e não como uma produção que traz, nela mesma, pistas do que há de inconsciente por trás daquele sintoma; pistas que levariam ao saber sobre o sujeito, possibilitando que este passe a se relacionar de uma nova maneira com o mundo. Talvez mais singular, talvez menos, mas certamente, sua.

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PS: Esta distinção é essencial para que a direção do tratamento possibilite gerar os resultados positivos que a literatura tem atribuído à psicanálise. Aliás, há duas excelentes meta-análises que demonstram estes resultados, tanto a médio como curto prazo. Mas isto é assunto para outro texto.

*A definição de sujeito para a psicanálise, assim como sua distinção em relação ao individual, é um tema complexo que remonta às definições de discurso e linguagem. Mais sobre isto pode ser encontrado no Seminário XVIII de Lacan, página 16-17 da tradução brasileira da Zahar.

Referências Gerais:

Branco, D. R. (2014). Dissertação de mestrado: O Sintoma Em Psicanálise: Entre o Corpo e o Sentido. Universidade Estadual de Maringá: Maringá.

Freud, S. (1905). Psicoterapia. São Paulo: Companhia das Letras.

Jerusalinsky, A. (2011). Gostinhas e Comprimidos para Crianças sem História: Uma Psicopatologia Pós-Moderna para a Infância. In: A. Jerusalinsky, & S. (. Fendrik, O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea (pp. 231-242). São Paulo: Via Lettera.

Lacan, J. (1971). O Seminário Livro 18: De um Discurso que não fosse Semblante.. Rio de Janeiro: Zahar.

Houvesse apenas um caminho…

 

Houvesse apenas um caminho, todos os caminhantes se encontrariam, mas não saberiam seus nomes, pois suas vozes seriam a mesma. Escrevi esta frase em um cartão para uma pessoa querida, como forma de desejar que, em seu percurso pela vida, encontre um caminho próprio em meio ao turbilhão de informações e exigências. Parece missão simples, mas nada fácil. Mas, além de ilustrar a intenção de um presente festivo, a frase denota que este tema tem circulado em meus pensamentos com certa frequência; seja por conta das questões que ouço na clínica, de minha área de pesquisa acadêmica ou pelo próprio contexto social deste início de década.

Antes de que o leitor pense que o texto será de cunho motivacional, que não se engane, pois ainda me  parece mais útil exercitar o pensamento crítico antes de interpretar a frase como um convite para que cada um “seja você mesmo”, um pleonasmo inevitável da obviedade. Por isto, trata-se de um questionamento sobre como a tecnologia que nasce para unir pessoas, acabou se tornando, a nível individual, fonte de sofrimento mental, assim como, a nível social, constante preocupação quanto aos impactos negativos sobre as instituições democráticas que dão suporte à civilização.  

Em 2020 George Orwell*, caso vivo, ficaria espantado ao descobrir que seu Big Brother não precisaria espionar ativa e secretamente a vida dos cidadãos, pois todos transmitiriam de forma voluntária sua intimidade e prestariam, sem questionamentos, contas de suas preferências, comportamentos, ideias e ideais, impulsionados pelo desejo algo inconsciente de serem avaliados, homogeneizados e padronizados. O autor de 1984, veria que as instituições de controle e observação seriam obsoletas se comparadas a uma forma muito mais sutil de monitorar, mensurar e direcionar comportamentos sem a necessidade de violência direta, para as quais não houve qualquer imposição de uso, pois todos aderiram solicitamente a seu uso e a alimentam com informações pessoais de bom grado. Orwell certamente se espantaria com o poderio levantado por Mark Zuckerberg, pois aqui já deve estar claro que estamos falando das mídias sociais.

Para jogar alguma luz àquilo que se tornou normal a ponto de não ser mais percebido, é importante entender que as mídias sociais não são um serviço que você utiliza sem custo material. Este custo pode até não ser de moedas que saem de sua conta ao logar em seu perfil, mas é capitalizado em produto ainda mais valioso, ou seja, você paga com sua atenção que será vendida a anunciantes, assim como também paga com seus comportamentos, preferências e padrões de usuário, base de dados a ser utilizada por empresas como a Cambridge Analytica para moldar anúncios e campanhas feitas com precisão, para que você não resista, seja a comprar um produto, ou para alterar intenções de voto de parcelas significativas da população. É o bom e velho ganha-ganha. Claro, para a empresa que pode lucrar tanto com a política de teclado, como com política de Estado.

Mas, esta ainda não é a jogada de mestre desta tecnologia que faz o Big Brother de Orwell parecer um automóvel dos anos 60, barulhento e pouco eficiente, pois o grande salto está no poder de aprisionamento subjetivo ofertado pelas mídias sociais. Perceba o leitor que este aprisionamento não é imposto, pois não existe, como no romance de Orwell, um Partido que obriga o assujeitamento de todos à sua necessidade de espionar e controlar. O verbo aqui escolhido foi ofertar, porquanto trata-se de oferecer as condições, a plataforma ideal  para que a captura aconteça com a solícita participação de todos que, sabendo ou não, doam-se de corpo e corpo aos olhos de cada pequeno (e grande) outro, em via escópica de duas mãos, criando uma constante relação de olhar e ser olhado, desejar e ser desejado a cada deslizada de dedos pela tela. Entrega-se a chave da prisão em troca de likes, retweets e seguidores.

Jacques-Alain Miller** comenta que é o desejo de ser avaliado que dá aos avaliadores poder sobre ao avaliado, aos moldes dos vampiros da Ficção, é necessário convidá-los a entrar. Porém, ao desejar a constante avaliação, dá-se aos avaliadores o poder de extinguir quaisquer possíveis traços diferenciais do sujeito, criando ideais cada vez mais padronizados de felicidade, sofrimento, sexualidade etc. O autor escrevia em 2003, muito antes do advento dos smartphones (que ocorreria por volta de 2007), no contexto das  avaliações de classes profissionais; mas, a estrutura das relações entre o sujeito e os ideais culturais, que Miller levanta neste texto, é aplicável à realidade que estamos aqui discutindo, pois indica o desejo neurótico de ser constantemente aprovado, chancelado pelo amor do Outro***. O que muda, é que a figura do avaliador seria substituída pelo coletivo que dialeticamente avalia, enquanto é também avaliado e direcionado não mais pelas instituições, mas pelos algoritmos que definem o funcionamento das plataformas de usuários.

Mas, não deixai toda esperança, ó vós que logais. Houvesse apenas um caminho, todos os caminhantes se encontrariam, mas se perceberiam sem voz, pois, a angústia de descobrir-se sem nome próprio, andando pelos algoritmos a depender dos likes e visualizações daqueles que tropeçam pelas redes, tem dado espaço a movimentos no sentido de controlar a ferramenta que pretendeu conquistar os artesãos (Mark que se contente). É o próprio mal-estar que nos leva, cada meia-volta da História, a questionar a própria civilização e as trocas que esta exige de seus civilizados indivíduos pois, aparentemente, é preciso perder a liberdade para poder lutar pela mesma. Neste sentido, resta apostar no fracasso desta prisão sem muros criada pelo (mal) uso das redes, que se expressa em forma de sofrimento como o medo de estar sempre perdendo algo (Fear of Missing Out: FOMO). Fracasso que possibilita que sejam criados novos caminhos, novos nomes, novas formas de se caminhar, com passos cada vez menos (algo)ritmados, de forma que seja possível tomar posse dos próprios desejos, sem ignorar a responsabilidade que isto implica. Afinal de contas, é o sofrimento de estar a-sujeitado que possibilita que possa fazer-se um sujeito.

 

 

*George Orwell (1903-1950), escritor, autor do romance distópico 1984.

** Você quer mesmo ser Avaliado? (Miller, J-A., 2003)

***A noção lacaniana de Outro – “grande outro” – trata-se de uma realidade discursiva, pertencente ao registro do Simbólico na qual se supõe a participação de um outro – no sentido de alteridade – mas que não se identifica totalmente a um sujeito.

O Jardim das Ilusões!!

Olá seres atravessados pela era da Informação. 

Por conta da demanda dos alunos de graduação, que se vêm frente a uma enxurrada de informações que precisam ser filtradas, percebo certa confusão em relação a saber o que é, e o que não é confiável para ser usado como referência. 

Bem, seguem aqui algumas direções que úteis tanto para quem está em fase de pesquisas acadêmicas, estudos para atuação profissional, quanto para quem faz leituras ou consome conteúdos de forma espontânea seja em blogs, youtube, podcasts e mídias sociais. 

A primeira orientação a se ter em mente é: uma informação ser publicada em um livro não é garantia de sua consistência. O mesmo vale para publicações em revistas de circulação geral (não acadêmicas), vídeos no youtube, posts do twitter. O que é dito, precisa ser verificado, isto é parte do processo de aprendizagem.

Isto leva à segunda orientação: Quem é o autor? Qual a confiabilidade da fonte desta informação?

Verifique a relevância do autor e sua produção técnica/acadêmica antes de citá-lo. 
Mesmo as novas teorias quando surgiram na história, por mais que tenham enfrentado certa resistência acadêmica, estavam sustentadas por um conjunto de teóricos/técnicos que a endossavam. Um exemplo é a própria psicanálise com a “sociedade das Quartas-feiras”, formada por médicos e estudiosos interessados, como Freud, em estudar a fundo o psiquismo Humano. Mesmo nestas casos, apensar de uma resistência inicial, uma construção de conhecimento séria demonstra consistência teórica que se manifestam em dados e publicações que conquistam prestigio entre outros cientistas, que por sua vez irão citar estas publicações em suas próprias.

De extrema importância para a ciência do conhecimento (epistemologia), Thomas Khun definiu que a estabilidade de um campo científico pode ser observada pela aceitação dos paradigmas deste pela comunidade de pares deste campo. Khun previu que discussões entre escolas são possíveis e até fazem parte do processo esperado em uma revolução científica porém, em momento algum sustenta que uma linha de pensamento poderia se sustentar diante da total desaprovação do meio científico.

De forma prática, existem indicadores para saber o quanto um autor é citado em sua área. O próprio Google scholar (acadêmico) é uma forma simples de saber o índice de citações de um autor que recebe por sua obra, o chamado i-10. O cuidado a ser tomado nestes casos é verificar de forma não apenas quantitativa (número de citações), mas também qualitativa, para evitar aferir credibilidade a algum autor que esteja sendo citado por ser constantemente refutado, ou apenas citado como alegoria, o que seriam na verdade indicadores negativos de confiabilidade. Mas, como fazer isto? Indo às fontes, lendo, pesquisando… Afinal, como diz Contardo Calligaris em sua coluna à Folha, para não dar opiniões esdrúxulas, leia pelo menos 4 livros de autores diferentes sobre o assunto. 

Portanto, desconfie de quem produz somente fora do meio acadêmico, isolado e desprezando a academia – geralmente um sinal de defesa. Busque a consistência dos dados e da teoria, procure saber se a interpretação do autor tem ressonância no meio. Sem verificação dos pares (outras pessoas da área) a produção pode ser um mero delírio do autor, no qual você arrisca embarcar quando não busca outras fontes.

O jardim das maiores aflições é o Jardim das ilusões!!

Daniel R. Branco

Ao Cantar na Escuridão…

“Ao cantar no escuro, o andarilho nega seu medo, mas nem por isso enxerga mais claro” Freud, 1926.

No espírito acelerado dos tempos atuais, nos quais a informação se tornou moeda acessível, pelo menos em partes, para todos, a mera possibilidade que o caminho da vida possa não ser totalmente banhado pelas luzes do conhecimento é rapidamente descartada como impossibilidade. Negada, nos discursos que permeiam a existência, até as últimas consequências. Mas, seria isto uma possibilidade real? Seria o saber passível de ser alcançado em sua completude, já que estamos banhados virtualmente por um mundo “High Tech”, que atravessa do espaço mais público ao mais íntimo?

Enquanto a ciência sabe que é a dúvida que gera o conhecimento, o cientificismo (sim, são diferentes) tem a certeza de poder explicar tudo; com a genética prometendo mapear e decodificar todos os traços tanto objetivos, quanto subjetivos, com as técnicas de autoajuda criando métodos a serem vendidos como solucionadores para todas as infelicidades da vida – seja ela individual, matrimonial ou corporativa – com a dogmática de religiões pós-modernas se esmerando em não deixar espaço para a dúvida. Resta somente aos historiadores, filósofos e psicanalistas apontarem o que destoa deste discurso que se apresenta tão sedutor ao sujeito.

Quando Freud escreveu a citação que deu início a este texto, em muitos aspectos o mundo era um lugar diferente. Desde então, a sociedade, a medicina e a ciência tiveram seu percurso,  no qual a ideia de evolução não deve ser entendida como uma linha constante, nem mesmo como uma tendência garantida, mas apenas como um desejo muito compreensível por parte de todos os envolvidos. Mas, um desejo dado como garantido a ponto de que a própria teoria da evolução darwiniana ser interpretada como demonstração desta tal tendência, mesmo que o autor em sua teoria da adaptação, nada tenha dito sobre um empuxo positivo à evoluir. Neste caso, embora a evolução seja uma questão de opinião, a mudança é, esta sim, inexorável e assustadora. Desta mesma forma, lacunas são preenchidas pelo senso comum para lidar com o medo do futuro, do incerto, daquilo que inevitavelmente é obscuro pela própria característica da existência.

O pensamento corrente pouco se alterou nesse longo espaço de tempo, tendo claramente criado soluções para grandes problemas de saúde, mas teve como efeito colateral (talvez necessário) o desenvolvimento de um discurso que vai de um determinismo extremo a uma tentativa de total holismo, mas que têm como ponto de coincidência a neurose por um saber que seja todo; pela total eliminação de qualquer impossibilidade. “Se você deseja, você consegue”, preferencialmente por si mesmo mas, se não for possível a ciência demonstrará qual a forma ou medicação/intervenção correta para tornar viável aquilo que cada um deseja. Uma imposição do sujeito ao contingente que, se levada a sério, possui ares de megalomania, como um delírio iluminista levado às últimas consequências!

Consequências estas que em partes seriam a construção de uma realidade frágil que procura se sustentar em pós-verdades, em figuras de identificação que enlaçam a plateia com discurso duvidoso, mas hábil em criar a desejada sensação de segurança – mesmo que falsa. Tal manobra demanda enorme esforço e investimento subjetivo para evitar o desconforto do não saber… Um salto de fé, mas sobre terreno suspeito!

Freud reconheceu em sua criação que, embora o movimento em direção ao saber seja necessário, há nele uma inerente miopia. Uma visão parcial, constituinte da própria condição humana e necessária para suportar a delicada ex-istência em meio às reais incertezas causadas por inevitabilidades da vida, como o tempo que consome o corpo, a natureza que volta e meia nos prega peças e as próprias ações do Outro, inesperadas e muitas vezes confusas a nosso olhar. Mas, nem por isto, esta miopia seria um acordo sem falhas em nosso processo civilizatório, pois ao ignorar a existência da falta,  tentando preencher todas as lacunas, o sujeito humano se empenha em um esforço fadado a entrar em conflito com a sua própria impossibilidade. Com a impossibilidade que não cessa de testemunhar que por mais luz que se jogue em um espaço, as sombras não deixam de existir, na verdade se fortalecem pela própria ação do ato de iluminar. Onde há luz, há sombra! Assim, ao ignorar este conflito, escancarado por este esboço do Real, o sujeito gera ainda mais sofrimento.

A saída, por mais simples que seja, não se constitui em tarefa fácil, apesar de possível. O mero ato de perceber este engano, de reconhecer sua existência, cria um novo movimento que permite percorrer o caminho do saber, mesmo que este caminho seja sempre parcialmente iluminado. Reconhecer a falta que nos habita pode ser a única forma de lançar alguma luz sobre a realidade de nosso percurso, pois reconhecer o medo do escuro não fará o andarilho enxergar melhor o caminho, mas certamente é uma aposta em saber de sua ignorância, para criar um novo modo de andar, condizente com sua realidade e pronto para resistir aos percalços de sua caminhada.

De vales a Picos – A Conquista de Guilherme e Juliana

Algumas experiências de nossa vida fazem uma mudança tão profunda, que quando pensamos nelas, sabemos que é uma divisora de águas. Elas podem ser um grande evento inesperado, uma mudança de condição física ou social, ou simplesmente um novo sentido adquirido em um processo de autoconhecimento. Se terão frutos positivos ou negativos, depende do sentido dado por cada um de nós a estas experiências.

O momento decisivo para o casal Guilherme e a Juliana veio há alguns anos atrás, de forma totalmente inesperada, quando a Juliana começou a apresentar sintomas de uma síndrome degenerativa do sistema nervoso, durante a gestação.

Assustador, não é mesmo? Mas, o que será que eles criaram a partir desta tempestade?

Há algumas semanas atrás, tive o privilégio de participar de uma experiência junto com alguns amigos, na qual o Guilherme, a Juliana e o montanhista profissional Máximo Kausch iriam testar uma cadeira adaptada para uma expedição que levaria a Juliana ao Acotango, montanha de mais de 6000 metros de altura, que fica na fronteira entre Bolívia e Chile.

 

Hey!! Mas, espere aí! Como viemos parar em uma montanha depois daquele assustador diagnóstico?!?!

Para entender isto precisamos contar a história deste singular casal, pois, um dos resultados daquele divisor de águas é um projeto chamado Montanha para Todos. Uma idealização do Guilherme e da Juliana para lidarem com a grande mudança que ocorreu em suas vidas. Por isto, eles nos concederam uma entrevista um pouco antes de partirem para a expedição de ataque ao cume do Acotango, para que a Juliana seja a primeira cadeirante a conquistar uma montanha de mais de 6000 metros.

Juliana e Guilherme

Guilherme e Juliana rumo ao Pico Araçatuba para testar a Julietti (Cadeira Adaptada para Montanha).

 

[Daniel R. Branco]: Podem contar um pouco da história de vocês? Há quanto tempo estão juntos, como começaram a praticar montanhismo?

[Montanha para Todos]: Nós estamos juntos há 13 anos e começamos acampando. Logo no primeiro ano de namoro fomos apresentados pelo meu irmão à escalada em rocha; nos apaixonamos e fomos estudar para aprender a escalar. Após uns dois anos escalando direto vimos que estávamos ficando muito solitários e fomos em busca de conhecer mais pessoas. Como a ideia foi fazer trilhas, conhecemos pessoas muito legais. No fim de semana seguinte fomos subir o pico dos Marins e adoramos a experiência…de lá pra cá, não paramos mais.

[Daniel R. Branco]: Vocês poderiam contar um pouco do adoecimento da Juliana e o processo de diagnóstico? Afinal, é uma síndrome bem rara. 

[MPT]: Foi algo bem rápido e inesperado. No segundo mês de gestação ela começou a sentir as pernas pesadas e os médicos achavam que era uma questão de circulação, porém em um intervalo de 2 meses ela já não tinha mais coordenação das pernas, mãos , braços e a fala ficou arrastada. Por isto, tivemos que começar a fazer uso de cadeira de rodas. Envolvemos mais de 30 médicos, sendo a grande maioria mais voltada para o lado acadêmico e de pesquisa pois estavam mais atualizados às novidades. Logo, enviamos um exame para os Estados unidos e começamos a ter uma forte suspeita de síndrome paraneoplásica, mas precisávamos fazer um pet CT para tentar concluir o diagnóstico, o que seria muito prejudicial para o Ben, então fizemos 3 ciclos de imunoglobulina humana para tentar controlar a piora e começamos uma busca por um hospital e médico que topasse antecipar o parto do Ben para podermos realizar o Pet CT. Conseguimos e antecipamos o parto para 7 meses, logo em seguida pudemos concluir o diagnóstico , degeneração cerebelar paraneoplásica.

[Daniel R. Branco]: Como foi para vocês o processo de e tratamento? E como foi que tomaram a decisão de não parar de fazer o que gostam?

[MPT]: Quando surgiu a suspeita do diagnóstico da Ju, vimos que estava caminhando para ser algo irreversível. Perguntei para Ju o que ela mais gostava de fazer e ela disse Viajar e subir montanha, então fiz uma promessa para ela que onde ela quisesse ir, eu a iria levar. Então, comecei a pensar em equipamentos que possibilitassem leva-la novamente para a montanha.

Inicialmente pensamos em criar uma bicicleta para fazer a carreta austral. Fiz o projeto, mas na metade do caminho surgiu a ideia de levar ela no aniversário para montanha, mas no momento só tínhamos a cadeira normal, do dia-a-dia. Foi muito difícil a subida com a cadeira normal, afinal ela não foi projetada para isto. Foi então que começamos a dar vida à Julietti (nome carinhoso que a Juliana deu para a cadeira projetada especialmente para montanha).

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[Daniel R. Branco]: O que vocês gostariam que as pessoas soubessem sobre o projeto Montanha para Todos?

[MPT]: Gostaríamos que todos soubessem da importância do voluntariado para conseguir manter o projeto ativo, não adianta nada distribuirmos cadeiras Juliettis se não tivermos quem ajudar nas atividades. Outro ponto forte é o pessoal participar e sentir a energia que tem cada atividade. Costumamos falar que é mais gratificante para quem ajuda do que pra quem vai sentado.

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[Daniel R. Branco]: Posso atestar que vi isto acontecer no teste da cadeira Guilherme, realmente todos tiveram uma experiência incrível!

[Daniel R. Branco]: O que vocês gostaria que as pessoas soubessem quando participam de uma trilha com uma pessoa com necessidades especiais?

[MPT]: Do bem que estão fazendo para a pessoa ali sentada, que muitas vezes acha que a vida se limita a hospital, casa e terapias ou, pior ainda, Às vezes acha que a vida acaba quando se tem limitações.

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[Daniel R. Branco]: O Brasil ainda não tem uma cultura de inclusão de PNE em todos os âmbitos, dito isto, há algo no comportamento das pessoas que incomode vocês em relação à Ju?

[MPT]: Uma coisa que incomoda bastante é que quase todo mundo vem perguntar para mim o que a Ju tem. As pessoas têm receio de conversar com uma pessoa com deficiência, acho que isso faz parte da inclusão e temos que quebrar estas barreiras.

[Daniel R. Branco]:Como vocês têm percebido a inclusão da Juliana e da Julietti nos grupos?

{MPT]: É algo muito legal!! Conhecemos as pessoas no dia e em poucos minutos já somos quase íntimos, todos querem ajudar, querem conversar, brincar… A Julietti une as pessoas. É uma verdadeira ferramenta que motiva o trabalho em equipe e exclui as diferenças.

Ah…e é uma fazedora de sorrisos!

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[Daniel R. Branco]:Em nossa cultura (Brasil), como vocês têm percebido a inclusão social de uma pessoa com necessidades especiais?

[MPT]: Ainda falta muito, mas o brasileiro é um povo carinhoso e amoroso. Não está difícil, mas o que falamos constantemente em palestras e eventos é que enquanto as pessoas com deficiência não saírem para a rua, enquanto ficarem escondidas apenas nas atividades de tratamentos, a inclusão não vai acontecer. Precisamos trabalhar a inclusão reversa, e isso só vai acontecer quando as pessoas especiais aparecerem.

Sabemos que acessibilidade é algo que aqui não existe, mas não adianta esperarmos tudo ficar acessível, pois não ficará. Por isso tentamos estimular ao máximo empresas e jovens estudantes para que pensem em soluções, serviços e equipamentos que possibilitem que um local não acessível se torne acessível a grandes intervenções, assim também aumentaremos a inclusão.

[Daniel R. Branco]:E que lugar melhor do que a montanha para demonstrar isto, não é mesmo? Quais os próximos planos de vocês?

[MPT]: Terça 10/07/2018 estamos embarcando para Bolívia para dia 15/07 iniciar a viagem expedição Montanha para todos , dando tudo certo a Ju pode se tornar a primeira montanhista cadeirante do mundo a subir uma montanha com + de 6000 metros de altitude.

Retornando da Bolívia começaremos a morar em nossa caminhonete adaptada, onde pretendemos viajar, durante 5 anos, pelo Brasil e pelo mundo.

Já com a ONG Instituto Montanha para Todos, esperamos em breve contar com vários voluntários para nos ajudar na questão administrativa e ter algumas empresas patrocinadoras para podermos desenvolver novos equipamentos para promover a inclusão e acessibilidade em outros esportes outdoor, assim como distribuir pelo Brasil estes equipamentos para que qualquer pessoa possa utilizar, sem custo.

As cadeiras Juliettis hoje, já são 23 distribuídas pelo Brasil, e queremos até o fim do ano que vem ter pelo menos uma em cada estado.

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No dia 25/07/2018 a expedição alcançou 5800m em direção ao Cume do Acotango.

[Daniel R. Branco]: Vocês gostariam de deixar alguma mensagem para as pessoas que lerem sua entrevista?

[MPT]: A vida pode ser muito boa mesma com limitações. Basta olhar para o que temos e não para o que não temos.

 

Conheça o projeto Montanha para Todos, pode acessar o site http://montanhaparatodos.com.br/ ou os perfis em mídias sociais Fecebook: https://www.facebook.com/montanhaparatodos/ e Instagram: @montanhaparatodos

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Esteja presente: desconecte-se!

Você tem dificuldades para organizar suas tarefas diárias? Dificuldades para definir prioridades, ou para manter a atenção por períodos mais longos em uma tarefa?

Se você respondeu que sim, está entre a grande maioria da população que vive conectada. Pesquisadores recentemente relacionaram a atividade de multitarefas diretamente com a dificuldade de focar a atenção e definir prioridades para suas tarefas do dia-a-dia. Multitarefas é a contemporânea necessidade de fazer várias atividades ao mesmo tempo, como estar no trabalho respondendo ao WhatsApp, acompanhando o instagram, checando os e-mails pessoal e do trabalho e ainda com mais duas ou três planilhas de trabalho abertas. A melhor representação, são aquelas várias janelas e aplicativos abertas em seu desktop, ou celular ao mesmo tempo.

A informação valiosa que estes pesquisadores descobriram, foi que a atividade multitarefas “desprograma um aplicativo natural” que nos auxilia tanto a saber o que é prioridade, quanto a manter a atenção focada nesta tarefa. Esta “desprogramação” tem efeitos sérios na qualidade de vida das pessoas, pois atrapalha desde o autogerenciamento (organizar sua vida, seus horários, suas tarefas) até a relação (presencial) com outras pessoas, pois é necessário ser capaz de focar no que a pessoa está falando, em sua tonalidade de voz e expressão facial para poder gerar uma relação empática e agradável. Na falta disto uma mera conversa de 30 segundos é quase uma tortura para se manter atento à outra pessoa… soa familiar?!

A boa notícia é que, de alguma forma, a atividade multitarefas gera um melhor desempenho para responder bem a treinamentos em focar a atenção. Exatamente isto! No estudo, usaram sessões diárias de mindfulness (atenção plena) e os resultados foram promissores. Os participantes que tinham uma rotina com grandes períodos de atenção à multitarefas (talvez o padrão geral na atualidade), tinham os piores resultados em atenção focada, mas também demonstraram uma melhora mais acelerada em sua atenção focada depois de práticas de mindfulness.

Portanto, se você tem dificuldade em definir suas prioridades, em executar uma tarefa complexa com qualidade, dificuldade em estudar ou mesmo em manter uma conversa atenta com outra pessoa, a prática de mindfulness de forma constante, como indicam as pesquisas, trará grandes benefícios para sua saúde mental. Existe um benefício também em procurar se desconectar por períodos específicos, como por exemplo, se distanciar do celular e de outras “janelas” que possam atrair sua atenção para poder focar na execução de um trabalho de forma mais integral, ou mesmo simplesmente fazer o exercício de ler um livro sem qualquer interferência… Esteja presente no que estiver fazendo.

Já pensou em desligar os celulares quando estiver em uma situação social e dedicar sua atenção às pessoas que estão presentes? Sim, é possível, antes dos celulares as pessoas sobreviviam desta forma…

Porém, os resultados desta pesquisa deixam uma outra questão no ar: Será que a forma como utilizamos a tecnologia na atualidade não contribuiu para a enxurrada de diagnósticos de déficit de atenção nos últimos anos? Aguardem os próximos capítulos.

Portanto, desconecte-se da rede e conecte-se com você e com seus semelhantes. Seu cérebro agradece.

 

 

 

 

Referências:

 

1) E. Ophir et al., “Cognitive Control in Multi-taskers”. 2009.
2) Gorman e Gree, “Short-therm Mindfulness intervention reduces the negative attentional effects associated with heavy media multitasking” 2016.
3) Mrazek et al. “Mindfulness Training improves working memory capacity and GRE performance while reducing mind wandering”, 2013.

A Normopatia Contemporânea

Vivemos uma época em que a patologização do comportamento chegou a um discurso extremo que se assemelha a uma espécie de “normopatia”, ou seja, uma extrema necessidade de definir a normalidade, o que é ou deixa de ser aceito pelos padrões funcionais da sociedade; criando como consequência o seu negativo, ou seja, a necessidade de classificar tudo que escapa desta norma definida pela ciência ou outras instituições como, obviamente, patológico… Doença a ser tratada. Tem sido assim com estados de humor, aparecendo aí as depressões e bipolaridades sendo diagnosticadas a qualquer sinal de desvio do “normal”*, e está sendo assim agora, com uma regulamentação que vem da esfera jurídica sobre um possível tratamento da homossexualidade.

Ora, se pensarmos em um ser no qual hipoteticamente possamos separar por completo o corpo fisiológico do “mental”, assim como tentou Descartes e ainda atentam tantas linhas de pensamento; talvez fosse realmente possível definir o que deveria ser um comportamento evolutivo, geneticamente definido e garantido por nossos instintos parece ser possível com nossos paralelos do restante do reino animal.

Porém, não podemos esquecer que, embora sejamos sim pertencentes ao reinos animal, somos um animal atravessado pela linguagem, fazendo com que nosso corpo instintivo (ou pulsional em algumas traduções de Freud, lá em 1915) não tenha um objeto determinado, estanque, quando falamos em relação à sexualidade e também em relação à outras vias de satisfação.

Isto faz com que sejamos, em nossa formação enquanto indivíduos, inicialmente abertos a todas as possibilidades de trilhamentos para esta satisfação instintiva, ou como definiu Freud, o ser humano em sua constituição é Polimorfo. Portanto, mesmo que venha a definir sua satisfação instintiva (ou pulsional) no formato heterossexual, existe em um segundo plano, mais ou menos reprimido por cada um, um resquício da possibilidade de satisfação homossexual. É aí que aparecem os moralizadores com sua irresistível necessidade de caçar ferrenhamente no outro, aquilo que o habita, mesmo que debaixo de muitas camadas.

Concluindo, se em uma ser no qual a satisfação instintiva é definida em seu amadurecimento, mas é em sua cerne polimorfa, mantando as antigas vias de satisfação como possíveis mesmo que reprimidas, ou direcionadas para pequenas fontes de prazer similares (sublimadas), então se falarmos em uma possibilidade do profissional da saúde aceitar a homossexualidade como passível de cura, ele precisa necessariamente aceitar também a heterossexualidade para o mesmo fim. Se, neste contexto, existir uma cura homossexual, pode-se pensar em uma cura heterossexual.

A Psicanálise entende que o sujeito não tem uma forma única e correta de funcionamento a ser definida, e imposta, pelo tratamento. Pelo contrário, entende que o tratamento em si é possibilitar que cada um possa lidar com sua forma própria de lidar com seus desejos. E sim, ela vai ter seus furos, dificuldades e sofrimentos em qualquer uma das possibilidades.

Quem sabe, ao invés de tentarmos desesperadamente “normalizar” o mundo, possamos aceitar cada vez mais as diferenças e entender que elas podem sim, gerar saídas muito criativas para esta arte tão complexa que é o viver.

*O que não implica na inexistência destes quadros, mas que o seus diagnóstico passou por um “afrouxamento” a ponto de qualquer desvio daquilo considerado como normal ser passível de tratamento baseado em medicamentos. Em geral a depressão, a bipolaridade e os quadros infantis relacionados à aprendizagem, passaram a ser medicados não apenas em casos agudos, na medida que todo desvio passou a ser considerado agudo…

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O Sucesso de Harry Potter e as Histórias Infantis

Com o final da história do pequeno bruxo, que se estendeu por mais de uma década, fica claro o grande sucesso desta trama. Sucesso decorrente da atenção não apenas por parte das crianças, mas também de diferentes gerações. Enquanto adultos acompanharam o enredo com interesse elevado, viram os personagens crescerem acompanhados de boa parte de sua plateia.

Outro fator que destaca a importância da série foi a forma como esta ganhou projeção mundial. Pois, diferente da grande maioria das produções atuais, seu reconhecimento público não resultou inicialmente do investimento de grandes editoras e estúdios, mas sim, conquistou sua projeção pelas vozes de seus pequenos leitores, para só depois ganhar o mundo através dos enormes mecanismos da indústria do entretenimento. E tudo isto, partindo de uma geração acusada de ser desinteressada pela leitura.

Somando estes fatores – tempo decorrido de seu início, um romance que desperta o interesse pela leitura e o reconhecimento partindo do público, além de vários outros que poderiam ser citados – fica a sensação de que há realmente algo nesta história que cativou o coletivo de forma singular.

Não é de hoje que histórias infantis ganham grande projeção entre os pequenos, sendo que alguns clássicos perduram atravessando gerações por séculos, inicialmente pela transmissão oral, para só depois a escrita, até alcançarem as diferentes mídias de hoje. Alguns exemplos são os famosos contos de Charles Perrault e dos irmãos Grimm.

Diante disto, podemos levantar o questionamento: o que tem estas histórias que fascinam tanto, levando algumas a continuar por séculos entre as prediletas das crianças?

As histórias maravilhosas:

 

Não pretendendo uma resposta definitiva, mas sim uma discussão sobre o tema, podemos pensar no que estas histórias integram à vida psíquica daqueles que tanto deslumbram.

Historicamente, as histórias infantis surgiram a partir dos contos de tradição oral camponesa do século XVIII – que a princípio não eram direcionados especificamente à criança[1] – mas foi apenas no séc. XIX, com a gênese da família nuclear e a atenção à infância como fase de desenvolvimento, que houve a infantilização destas narrativas tradicionais sendo então transformadas nos atuais contos de fadas.

Por definição, um conto de fadas é uma história que apresenta elementos extraordinários, surpreendentes, encantadores, não precisando necessariamente haver fadas em seu contexto. Neste tipo de conto o elemento fantástico é essencial por garantir que se trata de outra dimensão, de outro mundo, com possibilidades e lógicas diferentes do real.

Alguns destes contos são, reconhecidamente, valiosos instrumentos para um desenvolvimento psíquico saudável. Como a criança está em processo de delimitação das fronteiras entre o real e o imaginário, entre o mundo externo e o pensamento –fronteiras estabelecidas em parte pela repressão das representações inconscientes – todas as possibilidades da linguagem lhe interessam para compor o repertório imaginário de que ela necessita para “elaborar os enigmas do mundo e de desejos” (Parafraseando a Psicanalista Maria Rita Kehl).

Em seu livro, fadas no divã, Diana e Mário Corso indicam que a forma psíquica do uso dos contos de fadas pelas crianças, é similar à forma e função em que o mito era usado em sociedades antigas, ou seja, possibilitando ao indivíduo que fantasiosamente adentre a trama e encaixe suas questões nos esquemas interpretativos disponíveis para o mito (neste caso o conto de fadas). De forma mais clara, podemos dizer que o indivíduo seleciona fragmentos, unindo-os a sua própria maneira, de forma a construir uma explicação para assuntos que os questionam.

Os mitos, assim como os contos de fada, estão repletos de material inconsciente, reprimido, subjacente em suas tramas e personagens. As mensagens dos contos de fadas são transmitidas desde a mente consciente até a inconsciente, e como lidam com problemas humanos universais, estas histórias falam ao ego em germinação, encorajando seu desenvolvimento enquanto também aliviam tensões inconscientes, ou seja, demonstram caminhos pelos quais os desejos Inconscientes podem ser parcialmente satisfeitos com o mínimo de conflito entre as requisições do Eu[2] e da consciência moral (Superego), ambos ainda em desenvolvimento.

Para que possa superar as dificuldades psicológicas advindas do crescimento – como a superação das decepções narcísicas, dilemas edípicos, rivalidades fraternas, a sexualidade, o abandono de dependências infantis e, finalmente, sua individualidade – a criança precisa elaborar estes conflitos inconscientes. Este trabalho de elaboração não pode ser atingido de forma racional, mas familiarizando-se com este eu inconsciente, através de devaneios prolongados, fantasiando sobre elementos adequados da história em resposta às pressões inconscientes.

Harry Potter:

        

Uma obra extensa como esta dá margem a uma quantidade sem fim de possibilidades interpretativas. Tendo isto em vista, não pretendo desconstruir a obra em um texto de poucas palavras, mas sim levantar algumas possibilidades de reflexão sobre alguns temas comuns às histórias clássicas que se mostram presentes na história do bruxinho.

Embora alguns críticos tenham sugerido que o romance de J.K. Rowling pudesse induzir seus leitores a ater-se à fantasia, ficando “presos” a ela, vimos acima que isto não é verdade, pois o fantasiar e a ficção fazem parte de certas etapas do desenvolvimento do Sujeito e podem, se bem conduzidos, auxiliar na elaboração de alguns conflitos típicos da infância ou, como neste caso, da adolescência.

A história do bruxinho trata de temas comuns a todos adolescentes e pré-adolescentes, como a amizade, coragem, ambição, assim como dilemas éticos e sociais que permeiam o mundo dos bruxos – como, por exemplo, a discriminação dos “trouxas” e as constantes escolhas que Harry tem que fazer entre o caminho mais fácil, e o certo.

Outro fator são os heróis imperfeitos, e o caráter complexo de alguns, levantando a necessidade de maiores ponderações por parte do protagonista. Pois mesmo Dumbledore, uma pessoa extraordinária, se revela portador de falhas e de uma triste história em sua juventude, afastando sua imagem de ideal inalcançável para algo mais próximo do real; não muito diferente do que acontece com as figuras paterna e materna conforme a criança cresce. Julgamentos precipitados também são induzidos pelo caráter de Severus Snape, que ao final se revela o grande protetor de Potter e um homem apaixonado e devotado.

Parece-me bastante nítida a relação entre a figura de Voldemort e um resquício de representação da figura paterna – diluída na história entre vários personagens – com a qual Potter precisa acertar algumas contas. Voldemort assassinou os pais de Harry, mas é uma presença constante em sua vida, e divide com ele várias coincidências (como a varinha e a capacidade de falar com ofídios) culminando na necessidade de que algo em Harry seja eliminado para que o mal pereça. Isto me parece uma facilitação para lidar com os sentimentos ambíguos da criança em relação ao pai (conflitos edípicos), pois esta diluição em várias figuras paternas sendo vários deles bons, protetores, amorosos e corretos e um oposto e maligno que deve ser eliminado. Este tipo de conflito é uma constante nas interpretações dos contos clássicos feitas por Bruno Bettelheim em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas.

Embora a história de Harry seja ainda recente comparada com alguns clássicos, parece reunir alguns temas universais, além de uma trama interessante e dinâmica, pois como já nos disse Maria Rita Kehl: “A sobrevivência dos contos reside em sua capacidade de simbolizar e resolver conflitos psíquicos” e, para isto, os contos de Rowling parecem demonstrar alguma capacidade. Mas, só o tempo poderá dizer se a saga do pequeno bruxo perdurará por gerações.


[1] A história original da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, não tinha um final nada parecido com a versão de Perrault que conhecemos, pois o lobo devorava a todos, inclusive a protagonista.

[2] Eu ou Ego: Polo defensivo da personalidade, encarregado dos interesses da totalidade do sujeito, mas não totalmente autônomo.

Prolegômenos:

Inicio aqui esta jornada virtual, onde compartilharei alguns textos de minha autoria e, eventualmente, algumas referências diretas a outros autores.
A motivação para criação deste Site partiu do desejo de trabalhar de forma acessível e pessoal temas relacionados à Psicologia Clínica, às áreas da Educação, à Ciência e Epistemologia e ao cotidiano; tendo a Psicanálise como alicerce.