A Formação do Analista

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Falar sobre a formação do analista é esbarrar, inevitavelmente, em algumas questões fundamentais para que se possa pensar em como deveria ser instituída a formação daquele que deseja ter como profissão a psicanálise, ou seja, deseja ser um analista. Esta discussão se faz necessária não apenas por um simples exercício teórico, pois há uma questão prática, legal, envolvida a partir do momento que se tenta instituir a prática como profissão regulamentada pelo Estado. Em 2010 um projeto de lei tramitava no congresso com o intuito de incluir a profissão de analista, que neste caso estaria incluída em um grande “pacote misto” de terapias que seriam regulamentadas por uma federação nacional das terapias (FENATE), neste “pacote” estariam as atividades de acupuntura, homeopatia, terapia floral, fitoterapia, psicanálise, psicoterapia, tai-chi-chuan, doin, auriculoterapia, entre outras (LIMA, 2009).

Portanto, é imprescindível uma discussão acerca do que deve contemplar a formação de um analista, pois ao abster-se da discussão, corre-se o risco de que sejam impostos métodos de avaliação, ou mesmo de formação que nada têm da essência da psicanálise e que não contemplam suas singularidades.  Neste sentido, o que poderia ser uma formação para que alguém seja permitido dizer-se analista, e quem poderia determinar isto, o estado, alguma instituição ou o próprio sujeito?

Respeitando o fato de ser outro contexto histórico, é possível recorrer a Freud, que trata  deste assunto em seu artigo A Questão da Análise Leiga de 1926. Texto no qual se pode observar a opinião de Freud em relação a fazer uma correlação entre a capacidade de ser analista e uma formação universitária específica como Medicina, e também Psicologia se fosse nos dias de hoje, pois à época de Freud esta ainda não havia sido instituída como profissão. Neste texto Freud demonstra a opinião de que o saber com o qual trabalha o analista estaria além da formação acadêmica, além daquilo que se poderia apreender exclusivamente em uma universidade.

Tendo isto em vista, pode-se pensar que, por mais que uma graduação, ou pós-graduação possam ensinar (usando aqui um verbo diferente de transmitir) sobre a teoria psicanalítica, os funcionamentos meta-psicológicos e mesmo sobre a técnica criada pro Freud, não são suficientes para formar um analista. Este raciocínio pode ser estendido para a própria direção do tratamento, pois as diferentes formações na área de saúde, como psicologia ou medicina, têm também as suas especificidades, suas formas de entender fenômenos como o sintoma psíquico, o sintoma físico e mesmo a relação corporal/mental, que podem estar mais próximas de um modelo técnico que visa um ideal de funcionamento psíquico/comportamental  que demonstram  pouca relação com a direção de uma análise ou mesmo com o conceito de sintoma dentro das formulações de Freudo. Para diferentes áreas da saúde, mesmo um conceito epistemológico fundamental como o corpo, principalmente quando se trata de um visão mais fisiologista em relação a este,  terão pouca proximidade com o corpo pulsional da psicanálise, um corpo permeado pelos desejos do inconsciente, assim como pela estrutura da fala. Ou seja, tais formações acadêmicas não garantem que aquilo que estes profissionais fazem seja  que se espera de um analista.

É neste sentido que talvez seja possível questionar se a prática do psicanalista pode ser passível de regulamentação. Pois, se este for o caso, qual seria o critério? A formação acadêmica, um exame técnico após a finalização do curso que avaliaria os conhecimentos teóricos do candidato ou as normas das próprias instituições de Psicanálise? E se a melhor resposta fosse a última opção, haveria outro problema, pois são várias instituições com suas próprias regras, portanto, de qual delas seira a prioridade da IPA, das escolas francesas, inglesas, ou norte-americanas ? Ou então, cada escola teria seu critério e forneceria uma “chancela” para o profissional?

No outro oposto da equação teríamos a possibilidade de nenhuma regulamentação. Neste caso aquele que queira trabalhar com esta disciplina poderia mergulhar nas profundas águas do próprio inconsciente, estudar a teoria e fazer uma supervisão ou análise de controle, conforme as tendência da escola da qual se aproximar. Mas, neste caso, quem garantiria os profissionais que o atenderiam nesta sua construção profissional? Ou mesmo, o que garantiria que qualquer um não poderia auto-intitular analista sem ter percorrido o caminho do tripé da formação? As próprias regras do “mercado”?

Neste ponto, pode-se perceber que algumas destas perguntas já contém suas próprias respostas, pelo menos no que diz respeito à forma que poderia se esperar de uma formação, e talvez esta mesma forma tenha alguma garantia de que este processo direciona o candidato a ter algo de analista em algum ponto, ou à desistir da empreitada. Talvez, isto seja um pequeno delírio pessoal, mas parece que aquilo que é conhecido como tripé  – que consistiria no estudo da teoria, na análise pessoal (experiência subjetiva com o inconsciente) e na supervisão dos casos atendidos pelo candidato – possa acrescentar alguma esperança ao processo. Pois, espera-se que em algum momento o desejo de tornar-se analista seja conteúdo de trabalho de sua própria análise, assim como o estudo poderia levantar questões sobre a possibilidade de atuar com aqueles conceitos, e este trabalho que começa primeiramente com o esforço para compreendê-los. Acrescenta-se a isto a experiência de atender a queixa de outro e conseguir utilizar tanto a experiência pessoal – do analista – com a análise, quanto o estudo teórico para atuar. Parafraseando um dos excelentes personagens de Goethe: “É em vão que se vagueia de ciência em ciência: cada um aprende somente aquilo que pode aprender” (Mefistófeles – em Fausto).

Estas dificuldades inerentes da própria prática do psicanalista já podem ser uma espécie de avaliação que geraria uma “linha de corte” natural. Acrescentando que talvez o próprio “mercado” possa fazer também esta função, tendo em vista que um mau direcionamento não seria de grande ajuda para manter-se como profissional[1]. Mas, esta sem dúvida não é uma equação perfeita, assim como também não são as propostas de regulamentação vigentes. Corre-se aqui o mesmo risco que acreditavam correr os antigos navegadores gregos: Quando navegavam muito próximos a uma das bordas do mundo eram ameaçados pelo monstro Cila, mas se tentassem se afastar demais deste, corriam o risco de aproximar da outra extremidade e cair nas garras de outro monstro, Caríbdis. Portanto, ao se navegar entre Cila e Caríbdis, é aconselhável não recorrer aos extremos.

Assim, na questão da formação do analista, o tripé acena como esperança, tendo em vista que é em essência comum às diferentes escolas de psicanálise, e  mantém em sua base a experiência com o próprio inconsciente, pois é esta experiência que pode não ser garantia para que se faça um analista, mas é sem dúvida, pré-requisito.

Não há garantias, só a do desejo…

Referência consultada:

  •  LIMA,A. Projeto de lei 64/2009.

[1] Isto não levando em conta a possibilidade de um Darwinismo social às avessas como mostrado no divertido filme Idiotopia; uma comédia de divertimento fácil, mas que tem uma proposta de fundo muito interessante, pois o autor extrapola o raciocínio de que em uma sociedade onde os mais bem sucedidos socialmente não são os intelectualmente mais capazes a “seleção social” levaria a um futuro no qual o mundo seria dominado por aqueles que conseguissem entreter as massas e enriquecer com isto, levando a uma seleção subvertida que resultaria em uma sociedade bem pouco capacitada para resolver até os problemas mais simples do cotidiano.